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04/26/07
O cavalo de Tróia

Rui Moreira

Economista, presidente da Associação Comercial do Porto

in Público, 26 de Março de 2007



Tariq Ramadan diz que o racismo estrutural na Europa é o obstáculo que impede a articulação entre o islão e o laicismo



Tariq Ramadan esteve em Portugal para participar numa conferência organizada pela Esquerda Unitária Europeia. Professor em Oxford, Ramadan é neto de Hasan al-Bana, o fundador da Irmandade Muçulmana egípcia e tem sido apontado como um dos grandes filósofos da actualidade e como o único homem capaz de evitar o tão temido "choque de civilizações". Em Lisboa, Ramadan repetiu a sua tese de que os problemas das comunidades muçulmanas não devem ser etnicisados ou islamizados porque são de natureza social e que, por isso, a Europa deve garantir-lhes igualdade de tratamento, emprego e também de habitat.

Ramadan defende que o racismo estrutural que gangrena a Europa é o único obstáculo que impede a articulação entre o islão e o laicismo e nega que haja "questões de identidade religiosa ou de identidade cultural", invocando que os extremistas são uma minoria e que o seu comportamento é uma excepção, quando comparados com os muçulmanos mainstream que não têm uma estratégia de confronto.

Ora, o cenário recentemente descrito pelo insuspeito mufti de Marselha é um pouco diferente. Para Soheib Bencheikh, a situação das comunidades islâmicas está a agravar-se e as causas são diferentes. Explicou: "Os barbudos fecharam os bairros numa visão arcaica do islão e entramos numa fase de radicalização delirante, em que estes tomaram conta do debate sobre o laicismo como um cavalo de Tróia para nos esconder esse islão político, obscurantista, que está a devastar os países árabes. Alimenta-se da crise dos jovens e por isso os locais de culto estão a abarrotar, mas eu, que sou imã, não me alegro com isso... O véu é um rumo errado para as jovens, que conduz a comportamentos inquietantes: sou favorável à lei contra os símbolos religiosos nas escolas, pois devemos evitar colocar os professores na primeira linha."



É verdade que a terapia que Ramadan propõe é mais "ao gosto" (e parece ser feita à medida) da esquerda niilista que o imagina como um apóstolo da paz e da concórdia. O filósofo que, recorde-se, considerou as reacções às caricaturas como exageradas mas justificadas, defende o direito à crítica religiosa na Europa, faria melhor se defendesse o direito à crítica no islão, o que é, obviamente, mais delicado... Foi por isso que, em resposta aos seus amigos e parentes da famosa universidade egípcia de Al-Azhar (que este ano veio a terreiro defender a excisão...), invocou que as hudud, os castigos como a lapidação e as mutilações a que pudicamente chamou de castigos corporais, davam uma imagem negativa do Islão. Deveriam pois estar sujeitos a uma moratória "nos contextos sociais e políticos actuais", mas confirmou a sua total submissão à Sharia, à sua infalibilidade e ao seu carácter definitivo, apenas sugerindo uma reforma progressiva do sistema judicial que assegure os direitos elementares, ou seja, a possibilidade de o acusado se defender. Para Ramadan, só se lapida a mulher adúltera depois do julgamento e enquanto a Europa não estiver islamizada, devem-se adiar essas sentenças... Não admira que o mufti de Marselha tenha avisado: "Conheço o homem. É um tribuno carismático que defende uma visão totalitária e integrista, e é um crime tê-lo em contacto com a juventude."

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islao, sociedade, terrorismo, religiao, multiculturalismo

10/09/06
A máquina com vida própria

Helena Matos

jornalista

in Público, 30 de Setembro de 2006



Sete alunos da Escola Secundária D. Inês de Castro, em Alcobaça, foram agredidos por dois jovens do sexo masculino, com 16 e 17 anos, que não frequentam aquele estabelecimento de ensino. O episódio ocorreu na última quinta-feira [21 de Setembro], por volta das 14 horas, mas só ontem [25 de Setembro], foi divulgado pela PSP. O facto de a escola não ter portaria facilitou a entrada dos autores das agressões, que, segundo a vice-presidente do conselho executivo da Escola D. Inês de Castro, Dulce Lopes, são da freguesia de Pataias, no mesmo concelho."

Este facto relatado pelo Jornal de Notícias na sua edição de 26 de Setembro não tem aparentemente nada de excepcional. As agressões nem sequer foram muito graves, sobretudo quando comparadas com outras ocorridas noutras escolas. Mas chamo contudo a atenção para a seguinte frase "O facto de a escola não ter portaria facilitou a entrada dos autores das agressões." Uma escola sem portaria? O que é estranho é que este dado não nos choca. Não deixa de ser peculiar que seguranças e contínuos nos interroguem ao que vamos quando entramos no edifício duma junta de freguesia e que simultaneamente consigamos entrar e sair dumas instalações escolares sem que alguém nos pergunte o que quer que seja.

Várias vezes me tenho interrogado sobre os profundos temores que levarão à proliferação de contínuos e seguranças - não raramente em perfeita duplicação e triplicação de funções - nos mais díspares serviços públicos como as bibliotecas, arquivos, centros de saúde ou até em instituições militares. Contudo, inúmeras escolas funcionam sem qualquer controlo de entradas e saídas.

Não duvido que os alunos podem igualmente ser agredidos em plena rua, mas também tenho a certeza que uma escola a funcionar sem portaria é uma escola que não deve funcionar.

A ausência de controlo de entradas e saídas nas escolas públicas - e quiçá em algumas privadas, mas esse é um problema delas e de quem lá coloca os filhos - é apenas um e nem sequer o mais grave problema do ensino público em Portugal. Digamos que é uma espécie de símbolo daquilo a que se chegou.

Mais do que ser um gigantesco sorvedouro de dinheiro, o ensino estatal constituiu-se em Portugal como um maquinismo de corda que se autonomizou da realidade. O ensino público não vive para servir o público - no caso os alunos -, vive para corporativamente se sustentar, o que já não é tarefa de pouca monta, dado o gigantismo da estrutura que, em nome da educação, tem sido montada ao longo de décadas e décadas. Mesmo que os alunos se volatilizassem, a engrenagem continuaria largos anos em funcionamento, reivindicando sempre mais funcionários. A escola pública não está concebida do ponto de vista dos alunos, logo um espaço onde existem tempos lectivos, não lectivos, refeições, saídas, entradas... Antes pelo contrário, a escola organiza-se segundo a delimitação das obrigações de cada grupo profissional: quem não tem obrigação de vigiar os recreios? Quem não tem obrigação de limpar isto ou aquilo? Quem não tem obrigação de ficar depois das 15h?... Não se trata de trabalhar pouco ou muito. Mal ou bem. Em muitas destas escolas e jardins de infância existem excelentes e dedicadíssimos profissionais. Mas falta a concepção de que a escola só existe, se tiver alunos. Que não basta dar uma óptima aula, se a seguir ninguém se preocupar com o facto de a escola não ter portaria ou de se praticar um horário absolutamente incompatível com os horários de trabalho das famílias.

De igual modo, os conteúdos não estariam transformados numa espécie de ode ao politicamente correcto e muito menos os tempos lectivos seriam ocupados com actividades que apenas resultam na fase de experiência pedagógica, com turmas escolhidas e professores escolhidos em escolas que também são aquelas por acaso. Por exemplo, qual tem sido o saldo global da disciplina que dá pelo nome de Área de Projecto? É certo que devem existir experiências maravilhosas para mostrar em power point nos seminários sobre o que se pode fazer nesta disciplina. Mas na generalidade os conteúdos aí abordados dificilmente ultrapassam uns considerandos vagos sobre assuntos como a vida maravilhosa das baleias ou a roda dos alimentos.

Este esvaziamento dos conteúdos penaliza claramente os mais desfavorecidos em termos de saber e de competências para aprender. A substituição das disciplinas em que se transmitem conhecimentos por aquelas em que se modelam atitudes tem o seu expoente na chamada Educação Cívica. Esta disciplina tornou-se numa espécie de exercício de metalinguagem sobre os problemas da turma. Os nossos filhos saem da escola sem saber distinguir os poderes do Presidente da República dos do primeiro-ministro, mas sabem desde a mais tenra idade que têm problemas, que estão numa turma com problemas e que a escola ela mesma é um problema que não se resolve, porque o Ministério da Educação não dá esse abstracto indispensável que é necessário para erradicar os ditos problemas.

Dir-me-ão que estas tolices curriculares também imperam no ensino privado. É certo que sim, mas também é certo que a preocupação em apresentar resultados leva, apesar de tudo, a alguma moderação. E aqui chegamos ao busílis da questão: a escola pública não muda, enquanto não existir liberdade de escolha dentro do universo das escolas públicas e entre estas e as privadas.

Note-se que a simples possibilidade de se escolher a escola pública que se quer é uma excepção. Todos temos vergonha do tempo em que os portugueses eram tão pobres que ensinavam os filhos a mentir, quando inquiridos sobre a sua idade nos transportes públicos. Pois agora mentem sobre o local onde vivem, de modo a que os seus pais possam escolher a escola pública que querem.

A possibilidade desses mesmos pais dizerem tranquilamente que preferem a escola A porque é melhor do que a B soa a blasfémia e é mais do que meio caminho andado para verem a sua pretensão recusada. Termos como melhor ou pior são absolutamente interditos neste universo. E não só nele. Note-se que a maior parte dos nossos dirigentes políticos e figuras públicas - sejam eles de esquerda ou direita - opta por, nos níveis do básico e secundário, colocar os seus filhos no ensino privado. Jamais dirão que fizeram essa opção porque acreditam que o ensino privado garante melhores resultados, mas sim porque "dá mais jeito", "fica mais ao pé de casa", "os amigos também foram para ali"... Às vezes dizem que os horários do público não são compatíveis, mas o assunto morre aí mesmo.

E assim os portugueses que pagam caro um sistema público de ensino não só não podem escolher a escola pública que querem - e que oficialmente é gratuita, o que levará um extraterrestre a pensar que se auto-sustenta -, como são também gravemente penalizados, caso optem pelo ensino privado. O que leva a que não se pondere sequer a possibilidade de o Ministério da Educação transferir para a escola pública ou privada indicada pelas famílias a verba que anualmente despende com cada aluno? Porque se teme que muitas escolas públicas ficassem às moscas. Os nossos filhos estão reféns da máquina.

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politica, sociedade, portugal, politicamente correcto, ensino

Uma geração enganada

Rui Ramos
historiador
in Público, 28 de Setembro de 2006


Há-de ser duro, aos 50 ou aos 60 anos, ver desmoronar-se o mundo em que se viveu. Mas é talvez ainda mais duro, aos 20 ou aos 30 anos, ver desmoronar-se o mundo em que se ia viver. É o que está a acontecer a muitos dos portugueses mais novos. Esta semana, os sinos oficiais continuaram a dobrar pelo mundo para o qual foram criados e preparados. Era um mundo em que qualquer curso universitário significava um emprego e em que havia empregos vitalícios. Um mundo em que as regalias eram regularmente acrescentadas e em que as reformas vinham cada vez mais cedo. Para os jovens actuais, esse foi o mundo dos avós e dos pais. Já não vai ser o deles. Cada novo anúncio das várias comissões de reforma e revisão nomeadas por este Governo faz empalidecer a fotografia da vida como era há cinco ou dez anos. Tudo parece que foi há muito tempo.

Acontece que estas mudanças não chegaram gradualmente ou com aviso prévio. As notícias apareceram em catadupa, de repente, em meados de 2005, depois de garantida a maioria absoluta de José Sócrates. Até aí, o país (lembram-se?) andou convencido de que só tinha um problema, chamado Santana Lopes. Nesses tempos, era preciso ser um leitor fiel de Medina Carreira para perceber que o mal não estava apenas no primeiro-ministro e que a eleição de Fevereiro de 2005 nunca poderia ser o fim de todas as dificuldades. Agora, até os modelos que então nos venderam são vistos a nova luz. Só agora sabemos que, afinal, os escandinavos, os espanhóis e os irlandeses não andam prósperos apenas porque puseram muita gente na escola, mas porque sofreram "ajustamentos" dolorosos há dez ou há vinte anos. Não era isso que nos tinham contado. Não espanta, por isso, que muita gente nas gerações mais novas tenha sido apanhada em contramão, desprevenida, com as qualificações e atitudes desadequadas para o mundo que surgiu em Portugal nos últimos meses.

Essa falta de preparação nota-se, por exemplo, no ensino superior, nessa forma mais benigna de abandono escolar que é a fuga aos cursos "difíceis". Difícil, segundo parece, é por definição todo o curso que tenha a ver com "matemática". Percebe-se porquê: em 2005, os exames de Matemática do 9.º ano produziram 70 por cento de negativas. Em parte por causa disso, as áreas de licenciatura mais produtivas continuam a ser aquelas em que os lamentos sobre a saturação do "mercado" são maiores. Não se trata de um simples caso de imprevidência ou irracionalidade. Os estudantes e as suas famílias reagiram simplesmente aos estímulos que lhes foram administrados. E esses estímulos passaram todos, até há pouco tempo, por um sistema de ensino em que a inclusão era mais importante do que a qualidade, e a auto-estima mais importante do que o esforço disciplinado.

Em poucas áreas os equívocos foram maiores do que no ensino. Em Portugal, inquéritos à origem social dos estudantes e contas sobre o rendimento previsível dos licenciados levaram sistematicamente à ideia de que um diploma era um "privilégio": para os bem-aventurados, era uma forma de se reproduzirem; para os outros, um meio de ascenderem. Era de facto assim. Mas a partir daí imaginou-se que a questão era expandir esse "privilégio" administrativamente, da maneira mais barata e expedita. A facilidade passou a ser encarada como um princípio de justiça social. A mínima referência à qualidade levava a suspeitas de "elitismo".

Gerações sucessivas atravessaram um sistema de ensino calafetado em geral contra qualquer forma de avaliação externa, onde a aquisição de competências e de conhecimentos foi frequentemente secundária em relação a objectivos de suposta inclusão social. Durante anos, enquanto o Estado, sempre em expansão, absorveu metade dos licenciados, tudo correu mais ou menos bem, por entre discussões inconclusivas acerca das "reformas estruturais". Foi assim quase até ao Verão de 2005. Então, subitamente, o mundo mudou. Agora, talvez demasiados jovens estejam condenados a descobrir que passaram pelo equivalente escolar das fábricas de têxteis e de calçado mais obsoletas. Pedem-lhes agora para competir num "mercado global". Hão-de perceber, da pior maneira, que o sistema de ensino não os habilitou verdadeiramente para nada que não fosse o mundo que acabou. Que vão fazer? Ou antes: que podem fazer?

Houve em Portugal gerações que gozaram a festa. Haverá um dia gerações que já não vão esperar festa nenhuma. Mas há, neste momento, gerações que foram convidadas para uma festa que acabou antes de eles chegarem. Histórias destas nunca terminam bem.

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politica, sociedade

A ditadura do medo

Nuno Pacheco
editorial do Público, 28 de Setembro de 2006
 

O cancelamento oficial da ópera Idomeneo em Berlim mostra que o medo pode impor-se à razão e que a chantagem da "irritabilidade" pode ser pretexto para deixarmos de ser livres


Já lá vão sete décadas, muitas delas tumultuosas. Em 1937, o cineasta Alexander Korda sugeriu a Charlie Chaplin que fizesse um filme sobre Hitler, caricaturando-o. Chaplin não levou logo a proposta a sério, mas, quando se decidiu a fazê-lo, fê-lo com afinco. Levou dois anos. A meio das filmagens de O Grande Ditador tentaram desencorajá-lo. Em Nova Iorque, Washington e Londres um filme que pudesse irritar os nazis não era visto com bons olhos. A censura poderia amputá-lo. A distribuição poderia recusá-lo. Mas Chaplin não se intimidou. Nem os nazis precisaram do filme para se "irritarem", como tragicamente se viu. Na estreia, voltaram as ameaças: de bombas de mau cheiro nas salas, tiros aos ecrãs, desordens durante as projecções. Na América, que ainda não entrara na guerra mundial que dilacerava a Europa, o filme foi um êxito. Mas também uma dor de cabeça. O Presidente Roosevelt disse laconicamente a Chaplin (é o cineasta que o recorda, na sua volumosa autobiografia): "O seu filme está a dar-nos muitos aborrecimentos na Argentina." Mas depois veio Pearl Harbor. E ninguém mais discutiu cinema, até a própria guerra inspirar Hollywood para fazer dezenas de lucrativos filmes.

Setenta anos passados, em pleno século XXI, ainda se discute se determinada obra deve ser exibida ou amputada para não "irritar" alguém. O caso mais recente é o da Deutsche Oper de Berlim, onde a reposição de uma encenação contemporânea do Idomeneo de Mozart (estreada em 2003) foi cancelada por receio de "acções de fundo terrorista". Na encenação, o rei de Creta, revoltado "contra a ditadura dos deuses", exibe as cabeças cortadas de Posídon, Jesus, Buda e Maomé. Como isso poderia ferir a sensibilidade dos muçulmanos, deu-se o cancelamento. Porquê? Porque pairam no ar ameaças à integridade física por parte dos islamistas mais intolerantes e radicais. Ninguém se preocupou com a sensibilidade de cristãos ou budistas, pelo simples facto de, apesar de eventuais protestos, abaixo-assinados ou manifestações contra qualquer coisa que não lhes agrade, não se esperar deles agressividade semelhante. Significa que a violência compensa, que o medo pode impor-se à razão e que a chantagem da "irritabilidade" pode ser pretexto para deixarmos de ser livres. E isso é mais intolerável do que todas as eventuais provocações a credos ou crenças, porque a liberdade destes nunca foi posta em causa pela arte. Pelo contrário: é a arte, por mais discutível que seja, que tem sido condicionada, censurada e até mesmo destruída pelas mais cegas crenças e poderes.

No discurso final de O Grande Ditador, Chaplin profetizava, sob a máscara de falso Hynkel: "Saímos das trevas para a luz. Entramos num mundo novo, num mundo melhor, em que os homens dominarão a sua cupidez, o seu ódio e a sua brutalidade." A utopia desfez-se com a II Guerra: saímos para as trevas. E a elas voltaremos, se deixarmos, pelo medo, apagar a luz da liberdade.

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politica, liberdade, islao, sociedade, religiao, polemica opera idomeneo

10/02/06
A sensibilidade

José Caldas
leitor do Porto do jornal Público, na secção Cartas ao Director.
30 de Setembro de 2006


A actual polémica entre o islão e o Ocidente tem, pelo menos, o mérito de colocar na ordem do dia o tema tão polémico e pantanoso da "sensibilidade" e "susceptibilidade" ofendidas. Com efeito, em tempo algum, como no presente, tanta gente se melindrou tanto por tão pouco.

Este conceito (a sensibilidade) que emerge, gradualmente, em paralelo com a ascensão do individualismo moderno, suportado pela exaltação do eu e das suas necessidades e fragilidades, é sustentado e legitimado pela influência e expansão da psicanálise, do marketing e das actuais democracias garantistas e assistencialistas, nos últimos 30/40 anos.

O problema central da "sensibilidade" é que ele se revela totalmente refractário e impermeável à discussão racional. Quando alguém se diz ofendido ou agastado é impossível confirmar ou infirmar tal posição a partir de argumentos válidos e objectivos, o que torna este conceito altamente susceptível a manipulações e abusos.

Ora a "sensibilidade" mais não é do que um mero estado de espírito que reage com indignação e melindre ao "sentir-se ofendido". Dado que este "sentir-se ofendido" pode ter causas tão diversas como pura má interpretação, má-fé, estupidez, manha, arrogância ou sobranceria, exige-se uma grande dose de prudência e bom senso ao lidar com este tipo de situações, potencialmente explosivas e torrenciais.

Parecem-me existir, pelo menos, duas situações em que o recurso ao "melindre pela sensibilidade ofendida" é, manifestamente, inaceitável.

Na primeira, essa "sensibilidade" resulta de um puro exercício de oportunismo e calculismo hipócritas e apresenta-se como um disfarce conveniente, através do qual se procura obter vantagens e benefícios particulares, explorando a compaixão, ingenuidade ou piedade alheias. Como exemplo, atente-se nas frequentes tentativas de obter compensações chorudas junto do Estado ou empresas privadas por "falhas ou erros" que resultam, as mais das vezes, da inevitável complexidade das situações ou da displicência ou negligência do utente.

Na segunda, o "melindre" assenta na intolerável presunção, individual ou colectiva, de tentar impor a terceiros agendas ou convicções particulares e, simultaneamente, exigir total imunidade ou isenção críticas da parte dos terceiros afectados. Neste caso, a dita "sensibilidade" mais não representa do que uma estratégia torpe de intimidação e ameaça à liberdade de expressão e opinião, que não pode ser tolerada.

Na raiz do problema, surge a confusão, voluntária ou distraída, entre duas situações diversas que urge distinguir: uma é o direito individual em abraçar quaisquer crenças ou convicções do agrado próprio, desde que da sua prática não resultem prejuízos a terceiros; outra é forçar esses mesmos terceiros a "respeitar ou silenciar críticas" a essas crenças ou convicções, sobretudo quando elas lhes são impostas pelo medo ou pela violência.

A clarificação destas duas posições mostra que o Ocidente está a assumir uma posição perigosamente defensiva em relação à pretensa susceptibilidade do islão, a qual resulta de uma vontade ou capricho (que não quer ser contrariado) de impor a outrem as suas convicções e não de uma qualquer situação de injustiça ou discriminação. Aliás, não há memória de um tal esforço de contenção e autocensura em relação a uma religião como aquela que, nos últimos anos, tem sido manifestada pela inteligentsia e media ocidentais em relação ao islão.

É certo que as exigências da civilidade e da boa convivência social não recomendam uma atitude sistemática de hostilidade e provocação em relação a terceiros, sobretudo por motivos fúteis e gratuitos; mas também já é tempo de o Ocidente se libertar da canga traumática do "fardo do homem branco" e dos "males do progresso" e saber fazer frente, de modo descomplexado e corajoso, ao medievalismo fanático e intolerante que, grassa já, de modo inquietante e descarado, no seu seio.

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politica, liberdade, islao, sociedade, religiao

09/22/06
Avanços na superação do multiculturalismo

António Paim
Professor de ciência política
in Público, 18 de Setembro de 2006

Em 2006, a nova legislação britânica e francesa permitiu situar balizas, tomando como referência - explícita ou implicitamente - alguns dos valores essenciais da nossa cultura

O imperativo de superar os equívocos do multiculturalismo, no relacionamento com os muçulmanos na Europa, resulta da comprovação de que o propósito dos islamitas radicais é ressuscitar os tempos do enfrentamento militar entre o Islão e o Ocidente. O seu Calcanhar de Aquiles e a nossa vantagem flagrante advêm do fato de que os últimos séculos de convivência não podem ser ignorados. Comprovam que podemos (e devemos) coexistir pacificamente, o que não significa ignorar divergências e dificuldades.

Em fins de 2005, na colaboração habitual que mantém em jornais europeus, Francis Fukuyama advertia para a necessidade da Europa reconhecer o que então denominou de "Jihad dentro de casa". A degolação ritual do holandês Theo Van Gogh (nome fácil de guardar pela associação, ainda que indevida, ao grande pintor), ocorrida em Novembro de 2004, por muçulmano nascido e educado na Holanda, correspondeu ao primeiro grande choque com uma realidade - que muitos ainda hoje parecem não ter levado em conta, inclusive responsáveis governamentais -, embora tivesse sido antecedido pelo atentado de 11 de Março daquele ano, em Madrid. Talvez devido a questões de ordem interna, este último se não passou em brancas nuvens, também não mereceu maior atenção. Contudo, os atentados bombistas de 7 de Julho do ano seguinte, em Londres, tiveram o mérito de repor o tema em seu devido lugar. Resumindo a questão em termos apropriados, escreve Fukuyama: "países como Holanda e Grã-Bretanha precisam de inverter as políticas multiculturalistas contraproducentes, que criaram refúgio para o radicalismo, e têm de reprimir aos extremistas."

Em 2006, a nova legislação britânica e francesa permitiu situar balizas, tomando como referência - explícita ou implicitamente - alguns dos valores essenciais da nossa cultura. Assim, por exemplo, a tolerância religiosa deixa de constituir o princípio determinante naquele relacionamento. A sua admissão pressupõe a clara distinção, no que se refere aos muçulmanos, ao que seria, para nós ocidentais, a manipulação da religião com fins políticos. As próprias comunidades muçulmanas vão acabar convencendo-se que lhes incumbe tomar o partido do país que as acolheu. A rejeição e a denúncia de toda pregação radical tornar-se-ão progressivamente uma condição da própria normalidade de suas vidas. Não se pode impedir generalizações indevidas, de parte daqueles cujos familiares tenham sido vítimas de atentados terroristas.

Os recentes atentados abortados na Inglaterra, quando mais uma vez os protagonistas são de famílias de imigrantes, nascidos e educados no país, serviram para disseminar o reconhecimento da responsabilidade do multiculturalismo na criação do caldo de cultura propício a fenómenos daquela ordem. Esse reconhecimento achava-se limitado ao mundo académico, a exemplo da pesquisa coordenada pela professora Maria do Céu Pinho, da Universidade do Minho, dedicada ao tema O Islão na Europa (2006), que tive oportunidade de comentar. Agora a Ministra das Comunidades do Reino Unido, Ruth Kelly, destaca que "o consenso quase unânime sobre o multiculturalismo já ficou para trás." E encarece a necessidade de ser dado mais um passo: "deve ser questionado se este valor não tem contribuído para encorajar a separação entre comunidades" (PÚBLICO, 25/08/2006).

No novo ciclo de debates acerca do tema em causa, na Inglaterra, mais uma vez apareceu a tentativa de "salvar a face" dos candidatos a bombistas, sob a alegação de que o alinhamento britânico aos Estados Unidos, no Iraque, alimenta ressentimentos. Numa sociedade de democracia consolidada corresponde a uma tautologia referir divergências de ordem política. As pesquisas medem-nas com regularidade. Por isto mesmo, não se pode admitir o recurso a meios violentos para manifestar esse ou aquele desacordo. As regras da nossa convivência nesse plano não estão em causa. Lembro aqui a afirmativa de Nicolas Sarkozy referida em artigo anterior, segundo a qual "colocar uma bomba na Córsega ou assassinar um autarca não é um acto político mas simplesmente um crime". No caso de atentados a meios colectivos de transporte acrescentaria que se trata de um crime hediondo. Ademais, esse tipo de argumento induz comunidades muçulmanas a dispensarem-se de manifestar a sua solidariedade com as vítimas da agressão, se não quiserem identificar-se com os agressores e arcar com as inevitáveis consequências.

Publicado por: lpedromachado às 15:40 | link | comments | Avanços na superação do multiculturalismo" target="_blank">del.icio.us
politica, islao, sociedade, terrorismo, multiculturalismo

09/11/06
Hoje somos todos do Hezbollah

Rui Ramos, historiador
in Público, 6 de Setembro de 2006

Foi há cinco anos. Lembram-se? Fomos então todos americanos, ou pelo menos era assim que se dizia. No princípio do mês passado, em Londres, o slogan da manifestação anti-israelita era outro: "We are all Hezbollah now." Estava lá, vi-os desfilar. Não eram os personagens barbudos ou velados que associamos à militância islâmica. Eram o resto persistente do radicalismo estudantil de 1968, sob a forma de senhoras de meia-idade, de sandálias. Eram os jovens profissionais da guerra à globalização, com as indispensáveis perfurações nas orelhas e nos umbigos. Podiam ter-se limitado a negar a Israel o direito a defender-se perante a ofensiva iraniana. Mas não, quiseram ir mais longe: "Hoje somos todos do Hezbollah." Nessa noite, na televisão, ouvi os seus representantes perfilhar os argumentos de Ahmadinejad para defender a opção nuclear do Irão. Não confiam em Tony Blair, mas acreditam piamente na palavra do Presidente iraniano.

Chegou a altura de os jornais e as revistas começarem a pingar sabedoria sobre os "erros", a começar pela remoção de Saddam Hussein em 2003, que teriam comprometido a suposta harmonia pró-americana de Setembro de 2001. Em toda esta história, há, de facto, um erro: o de pressupor que é possível suspender as nossas desavenças políticas, mesmo em nome de qualquer coisa como a defesa da civilização ocidental. Pelo contrário, nos países ocidentais mais comprometidos na chamada "guerra ao terror", esta transformou-se no principal pretexto de polémica e debate. No Reino Unido, por exemplo, mais do que a reforma dos sistemas públicos de saúde ou educação, é a política para o Médio Oriente que tem servido aos adversários de Blair, à esquerda e à direita, para o isolar e demolir. Até os conservadores passaram a criticar os EUA e Israel, logo que perceberam que era aí que estava o ponto fraco do Governo trabalhista.

Os conservadores ingleses, apesar de tudo, provaram que é possível criticar a Administração americana sem chegar ao "hoje somos todos do Hezbollah". Por que é que a esquerda contestatária e revolucionária britânica passou essa linha? A chamada "extrema-esquerda" ocidental, depois da falência intelectual do marxismo e do desaparecimento do "movimento operário", tentou reconstituir-se como um albergue para quem sente impulsos militantes no que diz respeito aos direitos das mulheres e das minorias, ou a velhas causas como o secularismo, o pacifismo ou o ecologismo. Como se sentirão agora feministas, militantes gays, e pacifistas na companhia de um movimento que nega os direitos das mulheres e dos homossexuais, prega a teocracia, e cultiva a guerra e o martírio? Foi o que se perguntou Sarah Baxter, uma militante pacifista e feminista da década de 1980, no Sunday Times, ao ver as suas antigas camaradas desfilar com as tabuletas do Hezbollah.

Na Grã-Bretanha, uma parte da extrema-esquerda parece tentada a servir-se dos militantes islâmicos como um sucedâneo para as massas revolucionárias que a sociedade ocidental deixou de produzir. Em Londres, nas últimas eleições legislativas, a coligação Respect, de George Galloway, explorou isso: graças ao lastro da votação islamista, os velhos marxistas elegeram um deputado pela primeira vez. Ajudou-os muito, de resto, o facto de a candidata oficial do Partido Trabalhista ser de origem judaica. Como contrapartida, Galloway passou de socialista milionário a "cheerleader" do Hezbollah na imprensa inglesa. Aqueles que exigem liberdade de expressão, direito ao aborto, e diversidade sexual condenam as sociedades onde há essa liberdade e direitos, e dão a mão a movimentos que condenam tudo isso como pecado e sacrilégio.

Alguns, como Baxter, detectam aqui uma contradição bizarra. Outros, como John Gray ou Paul Berman, uma filiação subtil: o radicalismo islâmico, no fundo, seria apenas o resultado da importação árabe do velho radicalismo ocidental. Duvido que esta filiação seja exacta, e parece-me que há aqui mais do que uma simples contradição. No fundo, precisamos de ver a esquerda contestatária ocidental, tal como o seu equivalente à direita, a uma nova luz, para além do discurso que esses extremistas têm sobre si próprios. Se o "somos todos do Hezbollah" é meramente táctico, por que não entender as outras causas que actualmente identificam a extrema-esquerda e a extrema-direita da mesma maneira: como bandeiras que os extremistas usam e podem trocar por outras, conforme o seu potencial revolucionário?

A esse respeito, a história de David Myatt, que o Times de Londres divulgou em Abril deste ano, é ilustrativa. Myatt era o líder de uma das mais violentas organizações neonazis britânicas, de onde saiu o bombista que em 1999 procurou atingir os frequentadores homossexuais dos pubs de Soho, matando três. Hoje, Myatt dá pelo nome de Abdul Aziz Ibn Myatt. O neonazi explica a sua conversão, argumentando que o islão, tal como ele o entende, é hoje a única força capaz de atingir os alvos que, enquanto nazi, já eram os dele: o capitalismo, a democracia e a "corrupção" dos costumes. Myatt convenceu-se que a "nação" e a "raça", na medida em que já não incutem nos indivíduos uma razão para matar e morrer, nem despertam simpatia na sociedade, deixaram de servir para criar uma "situação revolucionária" no Ocidente. Só o islão, segundo Myatt, pode desempenhar essa função. Não há aqui qualquer contradição, nem é necessário imaginar filiações espúrias entre os credos. O objectivo, para Myatt, é o mesmo, só os meios mudaram (há um livro sobre o assunto: George Michael, The Enemy of my Enemy. The Alarming Convergence of Militant Islam and the Extreme Right, University of Kansas Press, 2006).

Quando veremos gente, à esquerda, a perceber o mesmo, e trocar abertamente a velha "classe operária" e as "minorias" dos últimos tempos pela nova força anti-sistema identificada por Myatt no islamismo? Em França, o velho estalinista Roger Garaudy já abriu o caminho, com a sua conversão ao islão e um livro a negar o Holocausto. Foi um best-seller quando traduzido em árabe. Para alguns dos cidadãos do Ocidente, dado o ódio que lhes inspira a sociedade em que vivem, faz todo o sentido "ser do Hezbollah".

Publicado por: lpedromachado às 16:48 | link | comments | Hoje somos todos do Hezbollah" target="_blank">del.icio.us
politica, liberdade, islao, guerra israel x hezbollah, sociedade

09/07/06
A nossa culpa

Helena Matos, jornalista
in Público, 2 de Setembro de 2006

Oito anos após ter sido forçada a entrar numa carrinha, Natasha Kampusch apareceu num jardim duma casa dos arredores de Viena. Até ao momento em que escrevo, sexta-feira, dela apenas se entreviu o vulto tapado por um cobertor. Natasha Kampusch actualmente pouco ou nada terá ver com a menina de 10 anos que vestia um daqueles incontornáveis casacos que as crianças austríacas parecem envergar desde os tempos do Música no Coração e que olhava sorridente na fotografia que, em 1998, foi espalhada por toda a Áustria para alertar sobre o seu desaparecimento.

As primeiras informações prestadas pela polícia austríaca sobre o aparecimento de Natasha Kampusch davam conta de várias semelhanças entre este caso e os ocorridos noutros países, nomeadamente na Bélgica. Uma dessas semelhanças remete para o comportamento das autoridades policiais: após o rapto de Natasha Kampusch a polícia austríaca seguiu várias pistas e, tal como aconteceu na Bélgica com Dutroux, também na Áustria os investigadores policiais chegaram a interrogar o raptor, mas desistiram de o investigar. A outra semelhança não é menos perturbante, tanto mais que é quase inevitável: Natasha Kampusch sofre de síndroma de Estocolmo, ou seja, mostra uma certa simpatia e afectividade pelo seu raptor.

Também aqui não existe diferença quando se compara a reacção de Natasha Kampusch com a de muitos outros raptos. Quando a polícia belga encontrou Laetitia Delhez e Sabine Dardenne no esconderijo em que Dutroux as mantivera prisioneiras, foi necessário que Dutroux acalmasse as duas raparigas, que tinham medo que algum dos polícias fosse o tal "chefe malvado" de que Dutroux dizia que as protegia, enquanto as violava e maltratava. Mais perversamente ainda Dutroux dizia que as maltratava para as salvar. O procurador Michel Bourlet e os polícias que acompanhavam Dutrox no momento em que este abriu a porta do esconderijo onde mantinha as suas vítimas ouviram não só as raparigas pedir autorização a Dutroux para levarem um perfume e uma caixa de lápis de cor daquela câmara de horror, como perceberam que as raparigas incluíam Dutroux nos obrigados que lhes dirigiam por as terem tirado dali.

Anos mais tarde este "obrigado" dirigido a Dutroux - o homem que a raptara e sujeitara a incontáveis maus tratos físicos e psicológicos - deu origem a algumas das páginas mais perturbantes de J"avais 12 ans, j"ai pris mon vélo et je suis partie à l"école..., o livro em que Sabine Dardenne recorda as semanas de cativeiro às mãos de Dutroux.

Por seu lado, os agressores explicam frequentemente os seus actos como resultado da piedade ou da paixão que as vítimas lhes inspiram. "Eu amava-a muito", declarou recentemente John Mark Karr ao ser detido sob acusação de ser responsável pelo assassínio de JonBenet Ramsey, uma menina de seis anos, estrangulada e violada na noite de Natal de 1996.

Sobre Wolfgang Priklopil, assim se chamava o raptor de Natasha Kampusch, sabe-se que não só se preocupava com as leituras da sua vítima, como instalou rádio e televisão no esconderijo em que a obrigou a viver. E, embora não ainda seja claro como aconteceu a fuga de Natasha Kampusch, o seu raptor ter-se-á suicidado na sequência da ausência da rapariga.

Felizmente para Natasha Kampusch estamos em 2006. E em 2006 não é expectável que o seu calvário seja justificado por algo que não esteja correcto no seu perfil. Durante décadas, nos casos de violação e violência doméstica, transferiu-se a culpa para as vítimas. A vítima era invariavelmente vista como culpada por ter estimulado o agressor. Haveria certamente algo de errado consigo mesma para que, no meio de tanta gente, ela tivesse desencadeado a agressão. Inevitavelmente acabava a discutir-se não tanto a agressão, mas sobretudo o que estimulara o agressor. A vítima era bonita ou feia? Ia sozinha ou acompanhada? Vestia saia curta ou comprida? Era rica ou pobre?... Havia sempre um motivo para que a vítima fosse vítima. Este tipo de raciocínio foi patente na apreciação das causas da morte de Gisberta.

Mas Natasha Kampusch tem razões para, apesar de tudo - e o seu tudo é algo inimaginável -, se dar por feliz. Caso Natasha Kampusch tivesse sido mantida em cativeiro oito anos por alguém que apresentasse o mais vago argumento ideológico para esse rapto, o seu caso seria avaliado doutra forma pela opinião pública europeia. O facto de ser austríaca, logo ter nascido num país rico, a par de os resultados eleitorais na Áustria nem sempre serem conformes ao que se espera, seriam alguns dos argumentos assacados para tornar aceitável o seu rapto. Quanto ao seu raptor, passaria a ser tratado como membro disto e lutador por aqueloutro. 

Mais precisamente, se Wolfgang Prilopil, devidamente transformado em insurgente ou resistente contra o que quer que fosse no passado, presente ou futuro da Áustria, do mundo, da sociedade ou do sistema, não se tivesse suicidado e fosse condenado, poderia tranquilamente aspirar a uma negociação que, em nome da paz e do diálogo, não só pusesse fim à sua pena, como lhe garantisse uma integração no aparelho de Estado. É isso por exemplo que faz neste momento Jesús Bolinaga, um dos etarras que raptou Ortega Lara e o manteve preso num buraco durante 532 dias. Como o actual Governo espanhol entendeu chamar "negociações" a um processo de branqueamento da ETA, esta organização - que até agora não proferiu uma palavra de arrependimento pelos seus actos - não só está transformada em interlocutora da paz, como transformou os terroristas condenados em presos políticos.
Esta duplicidade de critérios, quando não um indisfarçável fascínio, pelos crimes cometidos em nome de causas políticas não passou despercebida a alguns líderes de grupos criminosos, nomeadamente dos melhor organizados - os que se dedicam à produção e tráfico de drogas. As colombianas FARC e o brasileiro PCC demonstram como a apropriação pelo discurso ideológico - no caso, do argumentário de grupos de esquerda - leva a que se conceda o estatuto de interlocutor político e social a organizações que sem esse palavreado não passariam de associações criminosas.

Neste momento nas mãos das FARC estão dezenas de reféns. Alguns foram raptados há mais de sete anos. Se as FARC se apresentassem simplesmente como o grupo ao serviço do narcotráfico que de facto são, estes reféns mereceriam um pouco mais de atenção. Por exemplo, teríamos ouvido falar de Cecília Cubas, a filha da filha do ex-Presidente do Paraguai, Raúl Cubas, raptada e assassinada a mando das FARC. Ou teríamos ouvido falar dos fazendeiros venezuelanos e dos índios assassinados pelas mesmas FARC.

Com as palavras certas o agressor saberá gerir não só a sua condenação, mas também o que pensamos da própria vítima. E esse não é certamente um dos menos perversos dos seus poderes.

Publicado por: lpedromachado às 17:17 | link | comments | A nossa culpa" target="_blank">del.icio.us
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