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04/26/07
O cavalo de Tróia

Rui Moreira

Economista, presidente da Associação Comercial do Porto

in Público, 26 de Março de 2007



Tariq Ramadan diz que o racismo estrutural na Europa é o obstáculo que impede a articulação entre o islão e o laicismo



Tariq Ramadan esteve em Portugal para participar numa conferência organizada pela Esquerda Unitária Europeia. Professor em Oxford, Ramadan é neto de Hasan al-Bana, o fundador da Irmandade Muçulmana egípcia e tem sido apontado como um dos grandes filósofos da actualidade e como o único homem capaz de evitar o tão temido "choque de civilizações". Em Lisboa, Ramadan repetiu a sua tese de que os problemas das comunidades muçulmanas não devem ser etnicisados ou islamizados porque são de natureza social e que, por isso, a Europa deve garantir-lhes igualdade de tratamento, emprego e também de habitat.

Ramadan defende que o racismo estrutural que gangrena a Europa é o único obstáculo que impede a articulação entre o islão e o laicismo e nega que haja "questões de identidade religiosa ou de identidade cultural", invocando que os extremistas são uma minoria e que o seu comportamento é uma excepção, quando comparados com os muçulmanos mainstream que não têm uma estratégia de confronto.

Ora, o cenário recentemente descrito pelo insuspeito mufti de Marselha é um pouco diferente. Para Soheib Bencheikh, a situação das comunidades islâmicas está a agravar-se e as causas são diferentes. Explicou: "Os barbudos fecharam os bairros numa visão arcaica do islão e entramos numa fase de radicalização delirante, em que estes tomaram conta do debate sobre o laicismo como um cavalo de Tróia para nos esconder esse islão político, obscurantista, que está a devastar os países árabes. Alimenta-se da crise dos jovens e por isso os locais de culto estão a abarrotar, mas eu, que sou imã, não me alegro com isso... O véu é um rumo errado para as jovens, que conduz a comportamentos inquietantes: sou favorável à lei contra os símbolos religiosos nas escolas, pois devemos evitar colocar os professores na primeira linha."



É verdade que a terapia que Ramadan propõe é mais "ao gosto" (e parece ser feita à medida) da esquerda niilista que o imagina como um apóstolo da paz e da concórdia. O filósofo que, recorde-se, considerou as reacções às caricaturas como exageradas mas justificadas, defende o direito à crítica religiosa na Europa, faria melhor se defendesse o direito à crítica no islão, o que é, obviamente, mais delicado... Foi por isso que, em resposta aos seus amigos e parentes da famosa universidade egípcia de Al-Azhar (que este ano veio a terreiro defender a excisão...), invocou que as hudud, os castigos como a lapidação e as mutilações a que pudicamente chamou de castigos corporais, davam uma imagem negativa do Islão. Deveriam pois estar sujeitos a uma moratória "nos contextos sociais e políticos actuais", mas confirmou a sua total submissão à Sharia, à sua infalibilidade e ao seu carácter definitivo, apenas sugerindo uma reforma progressiva do sistema judicial que assegure os direitos elementares, ou seja, a possibilidade de o acusado se defender. Para Ramadan, só se lapida a mulher adúltera depois do julgamento e enquanto a Europa não estiver islamizada, devem-se adiar essas sentenças... Não admira que o mufti de Marselha tenha avisado: "Conheço o homem. É um tribuno carismático que defende uma visão totalitária e integrista, e é um crime tê-lo em contacto com a juventude."

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islao, sociedade, terrorismo, religiao, multiculturalismo

10/09/06
A ditadura do medo

Nuno Pacheco
editorial do Público, 28 de Setembro de 2006
 

O cancelamento oficial da ópera Idomeneo em Berlim mostra que o medo pode impor-se à razão e que a chantagem da "irritabilidade" pode ser pretexto para deixarmos de ser livres


Já lá vão sete décadas, muitas delas tumultuosas. Em 1937, o cineasta Alexander Korda sugeriu a Charlie Chaplin que fizesse um filme sobre Hitler, caricaturando-o. Chaplin não levou logo a proposta a sério, mas, quando se decidiu a fazê-lo, fê-lo com afinco. Levou dois anos. A meio das filmagens de O Grande Ditador tentaram desencorajá-lo. Em Nova Iorque, Washington e Londres um filme que pudesse irritar os nazis não era visto com bons olhos. A censura poderia amputá-lo. A distribuição poderia recusá-lo. Mas Chaplin não se intimidou. Nem os nazis precisaram do filme para se "irritarem", como tragicamente se viu. Na estreia, voltaram as ameaças: de bombas de mau cheiro nas salas, tiros aos ecrãs, desordens durante as projecções. Na América, que ainda não entrara na guerra mundial que dilacerava a Europa, o filme foi um êxito. Mas também uma dor de cabeça. O Presidente Roosevelt disse laconicamente a Chaplin (é o cineasta que o recorda, na sua volumosa autobiografia): "O seu filme está a dar-nos muitos aborrecimentos na Argentina." Mas depois veio Pearl Harbor. E ninguém mais discutiu cinema, até a própria guerra inspirar Hollywood para fazer dezenas de lucrativos filmes.

Setenta anos passados, em pleno século XXI, ainda se discute se determinada obra deve ser exibida ou amputada para não "irritar" alguém. O caso mais recente é o da Deutsche Oper de Berlim, onde a reposição de uma encenação contemporânea do Idomeneo de Mozart (estreada em 2003) foi cancelada por receio de "acções de fundo terrorista". Na encenação, o rei de Creta, revoltado "contra a ditadura dos deuses", exibe as cabeças cortadas de Posídon, Jesus, Buda e Maomé. Como isso poderia ferir a sensibilidade dos muçulmanos, deu-se o cancelamento. Porquê? Porque pairam no ar ameaças à integridade física por parte dos islamistas mais intolerantes e radicais. Ninguém se preocupou com a sensibilidade de cristãos ou budistas, pelo simples facto de, apesar de eventuais protestos, abaixo-assinados ou manifestações contra qualquer coisa que não lhes agrade, não se esperar deles agressividade semelhante. Significa que a violência compensa, que o medo pode impor-se à razão e que a chantagem da "irritabilidade" pode ser pretexto para deixarmos de ser livres. E isso é mais intolerável do que todas as eventuais provocações a credos ou crenças, porque a liberdade destes nunca foi posta em causa pela arte. Pelo contrário: é a arte, por mais discutível que seja, que tem sido condicionada, censurada e até mesmo destruída pelas mais cegas crenças e poderes.

No discurso final de O Grande Ditador, Chaplin profetizava, sob a máscara de falso Hynkel: "Saímos das trevas para a luz. Entramos num mundo novo, num mundo melhor, em que os homens dominarão a sua cupidez, o seu ódio e a sua brutalidade." A utopia desfez-se com a II Guerra: saímos para as trevas. E a elas voltaremos, se deixarmos, pelo medo, apagar a luz da liberdade.

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politica, liberdade, islao, sociedade, religiao, polemica opera idomeneo

O "aborrecimento metafísico"

Esther Mucznik
Investigadora de assuntos judaicos
in Público, 29 de Setembro de 2006


No Ocidente europeu a religião tem má fama. Com a condescendência própria de quem já ultrapassou essa fase de obscurantismo, rimo-nos dos americanos que continuam a afirmar que "in God we trust", não entendemos os polacos que continuam - por enquanto - a encher as igrejas, olhamos com um misto de espanto e desprezo para os que em Portugal, França ou Itália continuam, apesar de tudo, a procurar a religião. O que os move?, é a pergunta que inevitavelmente aflora à nossa mente racional e racionalista.

Qual a razão deste desprestigiar da religião? Terá a ver com a separação entre o poder político e o poder religioso, com a autonomização da sociedade em relação à religião e progressiva secularização da mesma, iniciadas no tempo do Renascimento e das reformas protestantes e que conheceu na época das Luzes um momento decisivo? Estará a perda de prestígio da religião relacionada com a perda de poder político? Ou na incapacidade das instituições religiosas em se adaptarem a esta nova situação?

Uma das consequências da modernidade consistiu na passagem de um mundo, cujo fundamento social era a religião, a um outro no qual a sociedade passa a encontrar nela própria o seu fundamento, admitindo apenas como seu soberano os seus próprios representantes. O que Max Weber denominou de "desencantamento do mundo" não foi apenas uma simples separação institucional entre o religioso e o político, mas sim o processo através do qual a racionalidade foi conquistando progressivamente todas as esferas da vida: as crenças passam a ser consideradas ilusões, proclama-se a liberdade individual contra o dogmatismo e contra "a autoridade do eterno ontem". No mundo moderno, a religião deixou de orientar a existência colectiva, tornou-se uma opção individual entre outras.

A ideia positivista de que está ao alcance do homem e da ciência compreender, controlar e manipular os fenómenos naturais para melhorar a condição humana, conjugada com o materialismo marxista para quem a história se faz basicamente pela economia e pela política - subalternizando a cultura e a espiritualidade -, assim como a convicção radical nascida em França, em 1789, de que "revolução" significa ruptura com o passado, tudo isso levou ao surgimento do que se pode chamar um humanismo secular, substituindo-se às religiões. "O homem europeu", diz o teólogo católico George Weigel, "convenceu-se de que para ser moderno e livre tem de ser radicalmente secular." Tem de relegar para o museu das velharias a fé religiosa, assimilada a tudo o que é antiquado, bafiento, retrógrado e castrador da criatividade humana. Nomeadamente procurou apagar os fundamentos judaico-cristãos da civilização europeia, ajudando deliberadamente a esquecer a sua própria história - o debate a propósito do preâmbulo da Constituição Europeia é disso um exemplo esclarecedor.

Se olharmos os manuais escolares - que são sempre um barómetro da ideologia dominante numa determinada sociedade - apercebemo-nos desta realidade. Em Portugal, e creio que não será muito diferente noutros países europeus, eles praticamente omitem o papel das religiões. Nos anos decisivos da formação do adolescente - dos 11 aos 15/16 anos - não há nos manuais de Língua Portuguesa, de História e de Formação Cívica nenhuma introdução séria ao fenómeno religioso, mesmo da religião cristã, onde as poucas explicações pecam pelo simplismo e falta de rigor. O islão surge sob a forma simpática de lendas que alimentam a mitologia, nomeadamente de amores impossíveis entre cristãos e mouros e de relatos de bravura e honradez nos combates pela Reconquista. Ou então sob a forma de folclóricas encenações de casamentos árabes... Quanto ao judaísmo, é o que sai mais maltratado, em primeiro lugar pela ausência: nos manuais escolares, a religião judaica simplesmente não existe, nem como religião, nem como presença histórica, restam apenas os preconceitos, esses sim amplamente veiculados, e uns vagos textos alusivos ao Holocausto. E inevitavelmente, o relacionamento promíscuo com o conflito israelo-palestiniano. De uma forma geral, a religião surge como marginal à história da humanidade, a não ser como causa de guerras e atrocidades, e é definitivamente relegada para as aulas de Religião e Moral.
 
Os manuais escolares são apenas um reflexo do que se passa ao nível da sociedade: a religião eclipsou-se do espaço público e sobretudo do debate público, tornando-se progressivamente numa questão apenas do foro privado e individual, amputada da sua dimensão histórica e colectiva. Ou seja, de um lado a sociedade, o homem, a história, a razão e o progresso; do outro a fé que, privada da sua seiva, se vai estiolando ou pervertendo. Se há algo no discurso recente do Papa Bento XVI que nos interpela, é a condenação dessa marginalidade a que a humanidade progressista ocidental confinou a religião, neutralizando-a e tornando-a "inofensiva", porque esvaziada do seu conteúdo vivo e interveniente. Com duas consequências: em primeiro lugar, o de dar espaço ao extremismo religioso, em reacção radical à secularização; em segundo, tornando mais difícil o diálogo inter-religioso, porque só uma sociedade que dá espaço ao fenómeno religioso é capaz de o travar.

O século XX desmentiu todas as perspectivas radicalmente optimistas de um mundo convencido da sua auto-suficiência: duas grandes guerras, o Holocausto, o Gulag, milhões de mortos ao serviço de ideologias seculares, abriram uma profunda crise civilizacional e moral da Europa contemporânea, tornando-a incapaz de se defender, de defender os seus valores e a sua história, incapaz sequer de assegurar a sua demografia. O humanismo secular está em crise e, à medida que vai perdendo o fôlego, é previsível que a religião ocupe um lugar de maior relevo na sociedade. A questão que se coloca é: que religião? Não haverá alternativa entre o fundamentalismo literal e rigorista e o secularismo racionalista? Não haverá alternativa entre a teocracia e o laicismo radical? Acredito que sim, embora, nos tempos que correm, não pareça fácil. Mas esse é, em minha opinião, o caminho e a reflexão que tem de ser feita pelos pensadores e dirigentes religiosos.

Não se trata obviamente de regressar ao mundo pré-moderno, nem de pôr em questão a separação Estado-religião. A separação de poderes é uma característica da civilização ocidental e a tensão dela decorrente é fonte fecunda de criatividade. Não se trata, pois, de misturar o que não deve ser misturado. Trata-se sim de reflectir sobre o espaço e o papel da religião na sociedade, na sua moralização e elevação espiritual individual e colectiva. Se há um facto inquestionável na condição humana, é que uma comunidade não pode sobreviver a uma existência sem sentido, num universo desprovido de significado. O racionalismo filosófico é incapaz de fornecer esse significado e muito menos um código moral. Mas, no mundo ocidental, o código ético herdado da tradição judaico-cristã tem vindo a atenuar-se e a tornar-se irrelevante: o resultado é a confusão moral, o relativismo e a impotência em defender os seus próprios princípios.

Demasiado arredada do mundo real, a religião deve, pelo contrário, participar no espaço público, não apenas como guardiã indispensável da tradição, mas também com uma intervenção intelectual e social, ética e espiritual adequada à realidade de hoje. Caso contrário não faltarão alternativas para ocupar o vazio provocado pelo que David Hart chama de "aborrecimento metafísico".

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politica, islao, polemica discurso bento xvi, religiao

10/02/06
A sensibilidade

José Caldas
leitor do Porto do jornal Público, na secção Cartas ao Director.
30 de Setembro de 2006


A actual polémica entre o islão e o Ocidente tem, pelo menos, o mérito de colocar na ordem do dia o tema tão polémico e pantanoso da "sensibilidade" e "susceptibilidade" ofendidas. Com efeito, em tempo algum, como no presente, tanta gente se melindrou tanto por tão pouco.

Este conceito (a sensibilidade) que emerge, gradualmente, em paralelo com a ascensão do individualismo moderno, suportado pela exaltação do eu e das suas necessidades e fragilidades, é sustentado e legitimado pela influência e expansão da psicanálise, do marketing e das actuais democracias garantistas e assistencialistas, nos últimos 30/40 anos.

O problema central da "sensibilidade" é que ele se revela totalmente refractário e impermeável à discussão racional. Quando alguém se diz ofendido ou agastado é impossível confirmar ou infirmar tal posição a partir de argumentos válidos e objectivos, o que torna este conceito altamente susceptível a manipulações e abusos.

Ora a "sensibilidade" mais não é do que um mero estado de espírito que reage com indignação e melindre ao "sentir-se ofendido". Dado que este "sentir-se ofendido" pode ter causas tão diversas como pura má interpretação, má-fé, estupidez, manha, arrogância ou sobranceria, exige-se uma grande dose de prudência e bom senso ao lidar com este tipo de situações, potencialmente explosivas e torrenciais.

Parecem-me existir, pelo menos, duas situações em que o recurso ao "melindre pela sensibilidade ofendida" é, manifestamente, inaceitável.

Na primeira, essa "sensibilidade" resulta de um puro exercício de oportunismo e calculismo hipócritas e apresenta-se como um disfarce conveniente, através do qual se procura obter vantagens e benefícios particulares, explorando a compaixão, ingenuidade ou piedade alheias. Como exemplo, atente-se nas frequentes tentativas de obter compensações chorudas junto do Estado ou empresas privadas por "falhas ou erros" que resultam, as mais das vezes, da inevitável complexidade das situações ou da displicência ou negligência do utente.

Na segunda, o "melindre" assenta na intolerável presunção, individual ou colectiva, de tentar impor a terceiros agendas ou convicções particulares e, simultaneamente, exigir total imunidade ou isenção críticas da parte dos terceiros afectados. Neste caso, a dita "sensibilidade" mais não representa do que uma estratégia torpe de intimidação e ameaça à liberdade de expressão e opinião, que não pode ser tolerada.

Na raiz do problema, surge a confusão, voluntária ou distraída, entre duas situações diversas que urge distinguir: uma é o direito individual em abraçar quaisquer crenças ou convicções do agrado próprio, desde que da sua prática não resultem prejuízos a terceiros; outra é forçar esses mesmos terceiros a "respeitar ou silenciar críticas" a essas crenças ou convicções, sobretudo quando elas lhes são impostas pelo medo ou pela violência.

A clarificação destas duas posições mostra que o Ocidente está a assumir uma posição perigosamente defensiva em relação à pretensa susceptibilidade do islão, a qual resulta de uma vontade ou capricho (que não quer ser contrariado) de impor a outrem as suas convicções e não de uma qualquer situação de injustiça ou discriminação. Aliás, não há memória de um tal esforço de contenção e autocensura em relação a uma religião como aquela que, nos últimos anos, tem sido manifestada pela inteligentsia e media ocidentais em relação ao islão.

É certo que as exigências da civilidade e da boa convivência social não recomendam uma atitude sistemática de hostilidade e provocação em relação a terceiros, sobretudo por motivos fúteis e gratuitos; mas também já é tempo de o Ocidente se libertar da canga traumática do "fardo do homem branco" e dos "males do progresso" e saber fazer frente, de modo descomplexado e corajoso, ao medievalismo fanático e intolerante que, grassa já, de modo inquietante e descarado, no seu seio.

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politica, liberdade, islao, sociedade, religiao

09/25/06
Basta de desculpas

Anne Applebaum

applebaumanne@yahoo.com
Colunista do Washington Post,
autora do livro Gulag: Uma História

in Público, 21 de Setembro de 2006

Texto original disponível no sítio do Washington Post. Aqui:

Enough Apologies


Palestinianos irados atacaram já sete igrejas em Gaza e na Cisjordânia, destruindo duas delas. Na Somália, homens armados mataram uma freira italiana idosa. Líderes religiosos radicais, do Qatar a Qom [cidade iraniana], pediram desde um "dia de raiva" até os fiéis "perseguirem" o Papa e os seus seguidores.

Da Turquia à Malásia, políticos muçulmanos condenaram o Papa e afirmaram que o seu pedido de desculpas é "insuficiente". E tudo isto porque Bento XVI, falando na Universidade de Ratisbona, citou o imperador bizantino que, há mais de 600 anos, afirmou que o islão era uma fé "difundida pela espada". Já vimos isto, claro.

Protestos semelhantes foram provocados no Inverno passado pelos cartoons representando o profeta Maomé na imprensa dinamarquesa. Seguiram-se pedidos de desculpa semelhantes, ainda que o de Bento seja mais surpreendente do que o do Governo dinamarquês. Ninguém, aparentemente, se consegue lembrar de que algum papa, nem sequer o "media friendly" João Paulo II, a pedir desculpa de algo em termos tão específicos: nem pela Inquisição, nem pela perseguição de Galileu, e certamente não por um comentário feito a uma audiência académica numa cidade alemã sem importância.

Mas as reacções ocidentais aos "dias de raiva" muçulmanos também seguiram um padrão semelhante. No Inverno passado, alguns jornais ocidentais defenderam os seus colegas dinamarqueses, alguns até publicando os cartoons — mas outros, incluindo o Vaticano, atacaram os dinamarqueses pela ofensa.

Alguns líderes católicos defenderam agora o Papa — mas outros, sem dúvida alguns dinamarqueses, queixaram-se de que a sua declaração deveria ter sido mais bem examinada, ou não ter sido sequer proferida. Isto não é surpreendente. Por definição, o Ocidente não é monolítico. Jornalistas de esquerda não se identificam com colegas de direita (ou colegas católicos de direita) e vice-versa. Nem todos os cristãos, já para não falar dos católicos — mesmo todos os católicos alemães —, se identificam com o Papa, e certamente não querem defender a sua muito académica citação.

Infelizmente, estas distinções subtis perdem-se entre os fanáticos que deitam fogo a embaixadas e igrejas. E também podem impedir que todos nós encontremos uma resposta útil às ondas de ira e violência que periodicamente, envolvem partes do mundo muçulmano. Claramente, uma mão-cheia de desculpas e algum debate público impensado — deveria o Papa ter dito "x", deveria o primeiro-ministro dinamarquês ter dito "y" — são ineficazes e irrelevantes.

Nenhum dos líderes religiosos radicais aceita as desculpas ocidentais e nenhum dos seus seguidores radicais lê a imprensa ocidental. Em vez disso, políticos ocidentais, escritores, pensadores e oradores deveriam parar com os pedidos de desculpas — e começar a unir-se.

Com isto, não quero dizer que todos tenhamos de defender ou analisar este sermão em particular, deixo isso para os peritos em teologia bizantina.

Mas podemos todos unir-nos no apoio à liberdade de expressão — certamente que o Papa pode citar textos medievais — e de imprensa. E também podemos unir-nos, ruidosamente, na nossa condenação de violentos e não provocados ataques a igrejas, embaixadas e freiras idosas. Por "nós" quero dizer a Casa branca, o Vaticano, os Verdes alemães, o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, a NATO, a Greenpeace, o Le Monde e a Fox News — instituições ocidentais de esquerda, direita e tudo o que está no meio.

É verdade que estes princípios soam como muito elementares — "somos a favor da liberdade de expressão e da antiviolência gratuita" —, mas nos dias que se seguiram ao sermão do Papa, não sinto que os tenha ouvido defendidos em nada que se parecesse a um coro unânime. Muito mais tempo foi passado a analisar o que o pontífice queria dizer, ou deveria ter dito, ou poderia ter dito se tivesse sido mais bem aconselhado.

Tudo isto passa da questão central, já que nada do que o Papa tenha alguma vez dito chega sequer perto do extremismo e da raiva que saem da boca dos líderes religiosos radicais todos os dias, na Europa e no mundo muçulmano, quase sem provocar qualquer resposta Ocidental. E talvez devesse ser altura para isso: quando a Arábia Saudita publica textos escolares que mandam os bons muçulmanos wahhabitas "odiar" cristãos, judeus e muçulmanos não wahhabitas, por que não deviam o Vaticano, os baptistas do Sul, o supremo rabi britânico e o Conselho para as Relações Americanas-Islâmicas condená-lo, simultaneamente?

Talvez seja um sonho fantástico. O dia em que a Casa Branca e a Greenpeace possam assinar uma declaração comum soa realmente distante. Mas se comentários avulsos de líderes ocidentais — já para não falar de filmes, livros, cartoons, tradições e valores — vão inspirar violência regular, não acho que seja demais pedir ao Ocidente para parar de pedir desculpas e unir-se, ocasionalmente, em sua própria defesa.

Os fanáticos que atacam o Papa já limitaram esse direito à liberdade de expressão aos seus próprios seguidores. Não vejo por que deveríamos deixá-los limitar também o nosso direito à liberdade de expressão.

Publicado por: lpedromachado às 15:04 | link | comments | Basta de desculpas" target="_blank">del.icio.us
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09/22/06
Entender Bento XVI

José Manuel Fernandes

editorial do Público, 18 Setembro de 2006





O Papa defendeu a importância de conciliar razão e religião para o diálogo de culturas. Porque foi treslido?





Aparentemente muitos jornalistas desistiram de ler, quanto mais de pensar. Se uma frase de uma figura pública não contém o sound-bite evidente, ficam sem norte. Quando em vez de terem de ler um simples têm de ler um texto complexo, as coisas ficam ainda pior. Infelizmente o que se passou depois do discurso de Bento XVI na Universidade de Ratisbona tem muito a ver com esta forma de fazer (mau) jornalismo, porque sem as notícias parciais e incompletas (para não as classificar cruamente de especulativas ou maliciosas), muita da ira ateada por radicais muçulmanos (os moderados tiveram uma atitude completamente diferente) não teria existido.



Recordemos algumas passagens do seu longo e complexo discurso dirigido a uma plateia de académicos e que tinha como tema as relações entre a fé e a razão. Começando pelo último parágrafo onde começa por criticar os que entendem que só a "razão positivista" é válida, sublinhando que "as culturas profundamente religiosas do mundo vêem na exclusão do divino da universalidade da razão um ataque às suas convicções mais arreigadas". Ou seja, disse "culturas" e não "cultura" ou "cristandade", ou "catolicismo". Pelo que acrescentou que "uma razão que é surda e relega a religião para o âmbito de uma cultura de segundo grau é incapaz de se inserir no diálogo das culturas."



Esta ideia do "diálogo de culturas", que já sublinhara numa anterior homília em Ratisbona, implica contudo que a religião entenda a razão, certamente um dos motivos porque escolheu citar o último imperador bizantino: "Não agir racionalmente, não agir com o logos, é contrário à natureza de Deus", disse Manuel II (...). É a este grande logos, a esta amplitude da razão que convidamos os nossos parceiros no diálogo de culturas. Redescobri-la constantemente é o grande desafio da universidade".



Perguntar-se-á: mas não haveria outros teólogos que o Papa pudesse citar? Seguramente. E podemos mesmo discutir se ao optar por citar a frase que originou a controvérsia - mesmo distanciando-se dela - não terá cometido um passo imprudente. Contudo a verdade é que se a nossa leitura não se ficar por essas linhas e se não as retirarmos do contexto, temos de lhes acrescentar o que o Papa explicitamente considerou como central no diálogo citado: "A frase decisiva nesta argumentação contra a conversão pela violência é: "Agir de modo irracional é contrário à natureza de Deus"". Ora se esta é a "frase central", porque se centrou toda a discussão num extracto secundário? A resposta possível é que há muito jornalismo incendiário. Ou, no mínimo, irresponsável e preguiçoso.



Com efeito é muito mais fácil, muito mais atraente, um título "escandaloso" do que procurar interpretar o que Bento XVI disse sobre o que cristianismo foi beber à herança da filosofia grega (um tema que não deve ter surgido por acaso, pois é sabido que deseja melhorar as difíceis relações com as correntes ortodoxas do cristianismo). Ou tentar perceber porque critica um teólogo muçulmano, Ibn Hazn de Córdova, a par com outro cristão, João Duns Escoto. Tudo isto não cabe nuns segundos de telejornal - a frase "brusca" de Manuel II sobre Maomé cabe. Porém, se isso acontece devemos pedir ao Papa mais sound-bites ou exigir antes mecanismos de transmissão de informação mais rigorosos?



Por outro lado, mesmo admitindo que Bento XVI devia mutilar o seu raciocínio em nome do "momento sensível que se vive", como tantos escreveram, não será antes nossa obrigação subscrever, face às reacções violentas às suas palavras, as palavras do George Carey, ex-arcebispo de Cantuária, anglicano e portanto insuspeito de "papista": "os muçulmanos, tal como os cristãos, devem aprender a dialogar sem gritar histericamente"?



E também sem atacarem templos.

Publicado por: lpedromachado às 15:32 | link | comments | Entender Bento XVI" target="_blank">del.icio.us
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