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01/11/07
O que vem depois do fim de uma civilização

José Manuel Fernandes

in jornal Público, suplemento Mil Folhas, 29 de Julho de 2006



Desde o clássico de Edward Gibbon, "The History of the Decline and Fall of the Roman Empire", publicado no final do século XVIII, que as razões e as consequências da queda do Império Romano do Ocidente têm fascinado e dividido os historiadores. Durante muito tempo - quase todo o tempo - as divergências centraram-se nas razões da queda de um império que durara cinco séculos e ainda possuía uma considerável força militar, convergindo os historiadores na visão de que a substituição do domínio romano pelo domínio dos diferentes povos "bárbaros" correspondera a um recuo civilizacional de que a Europa só se recomporia mil anos depois, com o Renascimento. Mas como não há frente em que o "politicamente correcto" não ataque, também nos últimos anos alguns académicos, tanto na Europa como nos Estados Unidos, têm vindo a alimentar a tese de que a "queda" não foi mais do que uma "transição" e que a Europa da Alta Idade Média conservara as qualidades que lhe permitiriam hoje associar-se num só "clube", a União Europeia.

Na verdade, como escreve o arqueólogo inglês Bryan Ward-Perkins neste seu "A Queda de Roma e o Fim da Civilização", este conceito - o de "fim de uma civilização" - "passou profundamente de moda". Tudo porque ""civilização" é uma palavra que as pessoas agora preferem não utilizar", substituindo-a pelo mais anódino conceito de "cultura", o qual não permite com tanta facilidade fazer distinções entre diferentes modos de vida: as "culturas" tendem a ter o mesmo valor (ou a ser vistas como tendo o mesmo valor), enquanto a "civilização" é certamente superior à barbárie. Ora "civilização" é mais do que "alta cultura", monumentos sofisticados e uma elite cheia de sabedoria: numa "civilização", ou numa sociedade civilizada, vive-se por regra melhor, cria-se mais riqueza, permite-se o acesso de mais gente a bens de consumo e a bens culturais, e por aí adiante. Se o declínio de uma "civilização" se pode notar, por exemplo, na lenta perda de qualidade da arte que produz (algo que um visitante atento pode notar, se visitar o Museu Romano de Mérida e comparar as obras mais antigas com as obras do final do Império, bem menos sofisticadas), também arrasta quase sempre consigo uma degradação da qualidade de vida do mais comum dos cidadãos. Este ângulo, por vezes menorizado, foi o que Bryan Ward-Perkins escolheu, até porque, como arqueólogo, estudou os vestígios que permitem perceber como se vivia no Império Romano e como se passou a viver depois de este ser varrido pelas hordas de invasores vindos do Norte e das estepes do Leste.

Ora, o que é que ele sublinha? Coisa simples mas significativas. Por exemplo: enquanto Roma dominou a Europa Ocidental e o Mediterrâneo, era possível a um modesto camponês comer num prato de cerâmica com uma qualidade que nem as mais faustosas cortes da Idade Média conheceriam séculos mais tarde. Ou que mesmo um humilde vendedor de perfumes de Pompeia sabia ler e escrever, podendo utilizar essa faculdade para se gabar, numa inscrição que deixou nas paredes da cidade destruída pelo fogo do Vesúvio, da sua última cópula com uma prostituta, e ler e escrever era uma faculdade a que séculos depois apenas tinha acesso a pequeníssima minoria de monges que habitavam os conventos mais eruditos. Ou ainda que se podia beber na Palestina vinho produzido na Ibéria, ou que as conservas de peixe do estuário do Sado chegavam à mesa de famílias da classe média espalhadas pela imensidão do Império. Não eram só os templos que eram bem construídos: as habitações dos mais humildes utilizavam durante o tempo dos imperadores romanos tijolos e telhas de melhor qualidade do que os palácios dos senhores feudais.

Naturalmente que todos os muitos achados arqueológicos a que o autor recorre para sustentar a sua tese do "recuo civilizacional" são apenas sinais de um mundo onde antes as mercadorias circulavam, onde se cunhava moeda, onde se tinham desenvolvido métodos sofisticados para melhorar a produção agrícola ou onde se lia e escrevia sem ter de pertencer a uma pequena elite, sinais que contrastam com o outro mundo que lhe sucedeu, onde nada disso era possível. Por isso, a queda do Império não foi uma mera "transformação", como certos estudiosos referem, mas uma verdadeira catástrofe. Não surpreende por isso que Ward-Perkins se indigne genuinamente com teses como a do historiador canadiano Walter Goffart, para quem aquilo "a que chamamos Queda do Império Romano do Ocidente foi uma experiência imaginativa que saiu um pouco fora de controlo". Não: "O fim do Ocidente romano foi testemunha de horrores e perturbações de um tipo que sinceramente espero nunca ter de viver; e destruiu uma civilização complexa, atirando os habitantes do Ocidente de volta a um padrão de vida típico da época pré-histórica."

Esta queda, que se produziu, na sua opinião, muito mais depressa e de forma mais inesperada e abrupta do que a previsível, se se tivesse assistido apenas a um lento declínio - e neste ponto o autor diverge da tese clássica de Gibbon -, acabaria por ser precipitada por erros políticos, pela degenerescência ética do Estado e dos seus líderes e, sobretudo, pelo colapso da estrutura económica que permitia a Roma manter os seus gigantescos exércitos. Na verdade, quando estes deixaram de proteger as populações contra as incursões dos bárbaros, estas deixaram de sentir que valia a pena pagar impostos; sem impostos não se podia pagar aos legionários e com menos legionários ainda havia menos protecção. Entrou-se assim numa espiral viciosa que provocaria o rápido desaparecimento do Império do Ocidente, algo que surpreendeu os próprios cidadãos de Roma. Daí o seu alerta: "Os romanos, antes da queda, estavam tão certos como nós estamos hoje de que o seu mundo continuaria para sempre substancialmente inalterado. Estavam errados. Seria errado repetirmos a sua complacência."

Depois de Jared Diamond nos ter descrito em "Collapse: How Societies Choose to Fail or Succeed" a forma como a civilização que ergueu as estátuas gigantes da Ilha da Páscoa se "suicidou" ao destruir os recursos naturais que a sustentavam, Ward-Perkins mostra-nos como outra civilização, esta muito mais poderosa, também desapareceu quase de repente e sem aviso. Ambas as narrativas não deixam dúvidas: não só a História não segue sempre um percurso linear de progresso, como o que vem depois de uma grande civilização é sempre pior, mesmo para os que antes se diziam seus escravos.



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A Queda de Roma e o Fim da Civilização

Autor: Bryan Ward-Perkins

Tradutor: Inês Castro

Editor: Alêtheia Editores, 2006

306 págs., 18€

Publicado por: lpedromachado às 19:01 | link | comments | O que vem depois do fim de uma civilização" target="_blank">del.icio.us
cultura, historia, politica, politicamente correcto, queda de roma

01/05/07
O fim de uma civilização

Desidério Murcho

in jornal Público, suplemento Mil Folhas, coluna Valia a pena traduzir, 29 de Abril de 2006



A mesmíssima mentalidade que aplaude a prisão do historiador David Irving por negar o Holocausto tem de aplaudir os que negam a queda da civilização romana, e pelas mesmas razões: não é "politicamente correcto". Que seja verdade que o Holocausto existiu e falso que a civilização romana não tenha sido destruída pelos bárbaros é irrelevante. A liberdade de expressão é uma ilusão se não incluir a liberdade para dizer o que é globalmente tido como falso.

O historiador Bryan Ward-Perkins é membro do Trinity College de Oxford, co-organizou o vol. XIV da obra "The Cambridge Ancient History" e é autor do livro "From Classical Antiquity to the Middle Ages". Nesta obra, dirigida ao grande público, apresenta as razões centrais para defender a posição hoje proibida de que, de facto, a civilização romana foi destruída pelos bárbaros. A ideia multiculturalista e relativista agora em voga é que não se deve usar o termo "civilização", que sugere superioridade moral; não se deve pensar que a sociedade dos diferentes povos que invadiram o império romano era inferior, em qualquer aspecto, à sociedade romana; nem se deve pensar que a integração dos inadequadamente chamados "bárbaros" foi violenta - foi antes uma "movimentação de populações", que se integraram e que mudaram, mas não pioraram, o tecido cultural, económico, social e político do mundo antigo. Assim, em vez de se falar de idade das trevas, fala-se de antiguidade tardia. Bryan Ward-Perkins apresenta diversos dados e razões para pensar que esta posição é insustentável, por mais que seja politicamente correcta (é a posição da União Europeia e da European Science Foundation). Assim, se pegar a moda de prender historiadores que defendem o que não é politicamente correcto, Ward-Perkins tem os dias contados.

Este é um livro sóbrio, distanciado e objectivo, tratando com enorme bonomia e cortesia as posições que o autor pretende refutar - o que só por si é uma vitória do espírito humano. Recorrendo a dados arqueológicos e estudos pormenorizados, o autor mostra que em muitos aspectos a queda do império romano representou um retrocesso civilizacional de séculos - houve realmente uma idade das trevas. Ao invés de se deter nos grandes feitos de engenharia, por exemplo, ou na produção cultural, o autor argumenta que uma das marcas de um grau elevado de sofisticação civilizacional é a especialização do trabalho e a distribuição de bens correntes em grande escala e a preços baratos. E isso é precisamente o que se verifica durante o império romano, desaparecendo de seguida: uma vasta rede de distribuição de produtos baratos de grande consumo, acessíveis ao povo mais humilde. Com a queda do império, os únicos artigos que viajam grandes distâncias são luxos da nova aristocracia de origem bárbara.

Os historiadores que negam a queda violenta do império romano e a existência posterior de uma idade das trevas destacam a produção cultural de pendor religioso, que foi abundante neste período. Mas Ward-Perkins mostra que este fenómeno não refuta a ideia de que houve uma idade das trevas, pois durante o império romano a leitura e a escrita estavam de tal forma difundidas que era comum mesmo em famílias com poucos recursos - não era apanágio de uns poucos místicos iluminados.

Magnificamente bem escrita e documentada, directa e simples na sua apresentação, mas sofisticada no conteúdo, esta é uma obra para ler, reler e discutir.



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The Fall of Rome and the End of Civilization

AUTOR Bryan Ward-Perkins

EDITOR Oxford University Press

239 págs., 14.99 libras

www.oup.co.uk

Publicado por: lpedromachado às 18:19 | link | comments | O fim de uma civilização" target="_blank">del.icio.us
cultura, historia, politica, politicamente correcto, queda de roma

10/09/06
A máquina com vida própria

Helena Matos

jornalista

in Público, 30 de Setembro de 2006



Sete alunos da Escola Secundária D. Inês de Castro, em Alcobaça, foram agredidos por dois jovens do sexo masculino, com 16 e 17 anos, que não frequentam aquele estabelecimento de ensino. O episódio ocorreu na última quinta-feira [21 de Setembro], por volta das 14 horas, mas só ontem [25 de Setembro], foi divulgado pela PSP. O facto de a escola não ter portaria facilitou a entrada dos autores das agressões, que, segundo a vice-presidente do conselho executivo da Escola D. Inês de Castro, Dulce Lopes, são da freguesia de Pataias, no mesmo concelho."

Este facto relatado pelo Jornal de Notícias na sua edição de 26 de Setembro não tem aparentemente nada de excepcional. As agressões nem sequer foram muito graves, sobretudo quando comparadas com outras ocorridas noutras escolas. Mas chamo contudo a atenção para a seguinte frase "O facto de a escola não ter portaria facilitou a entrada dos autores das agressões." Uma escola sem portaria? O que é estranho é que este dado não nos choca. Não deixa de ser peculiar que seguranças e contínuos nos interroguem ao que vamos quando entramos no edifício duma junta de freguesia e que simultaneamente consigamos entrar e sair dumas instalações escolares sem que alguém nos pergunte o que quer que seja.

Várias vezes me tenho interrogado sobre os profundos temores que levarão à proliferação de contínuos e seguranças - não raramente em perfeita duplicação e triplicação de funções - nos mais díspares serviços públicos como as bibliotecas, arquivos, centros de saúde ou até em instituições militares. Contudo, inúmeras escolas funcionam sem qualquer controlo de entradas e saídas.

Não duvido que os alunos podem igualmente ser agredidos em plena rua, mas também tenho a certeza que uma escola a funcionar sem portaria é uma escola que não deve funcionar.

A ausência de controlo de entradas e saídas nas escolas públicas - e quiçá em algumas privadas, mas esse é um problema delas e de quem lá coloca os filhos - é apenas um e nem sequer o mais grave problema do ensino público em Portugal. Digamos que é uma espécie de símbolo daquilo a que se chegou.

Mais do que ser um gigantesco sorvedouro de dinheiro, o ensino estatal constituiu-se em Portugal como um maquinismo de corda que se autonomizou da realidade. O ensino público não vive para servir o público - no caso os alunos -, vive para corporativamente se sustentar, o que já não é tarefa de pouca monta, dado o gigantismo da estrutura que, em nome da educação, tem sido montada ao longo de décadas e décadas. Mesmo que os alunos se volatilizassem, a engrenagem continuaria largos anos em funcionamento, reivindicando sempre mais funcionários. A escola pública não está concebida do ponto de vista dos alunos, logo um espaço onde existem tempos lectivos, não lectivos, refeições, saídas, entradas... Antes pelo contrário, a escola organiza-se segundo a delimitação das obrigações de cada grupo profissional: quem não tem obrigação de vigiar os recreios? Quem não tem obrigação de limpar isto ou aquilo? Quem não tem obrigação de ficar depois das 15h?... Não se trata de trabalhar pouco ou muito. Mal ou bem. Em muitas destas escolas e jardins de infância existem excelentes e dedicadíssimos profissionais. Mas falta a concepção de que a escola só existe, se tiver alunos. Que não basta dar uma óptima aula, se a seguir ninguém se preocupar com o facto de a escola não ter portaria ou de se praticar um horário absolutamente incompatível com os horários de trabalho das famílias.

De igual modo, os conteúdos não estariam transformados numa espécie de ode ao politicamente correcto e muito menos os tempos lectivos seriam ocupados com actividades que apenas resultam na fase de experiência pedagógica, com turmas escolhidas e professores escolhidos em escolas que também são aquelas por acaso. Por exemplo, qual tem sido o saldo global da disciplina que dá pelo nome de Área de Projecto? É certo que devem existir experiências maravilhosas para mostrar em power point nos seminários sobre o que se pode fazer nesta disciplina. Mas na generalidade os conteúdos aí abordados dificilmente ultrapassam uns considerandos vagos sobre assuntos como a vida maravilhosa das baleias ou a roda dos alimentos.

Este esvaziamento dos conteúdos penaliza claramente os mais desfavorecidos em termos de saber e de competências para aprender. A substituição das disciplinas em que se transmitem conhecimentos por aquelas em que se modelam atitudes tem o seu expoente na chamada Educação Cívica. Esta disciplina tornou-se numa espécie de exercício de metalinguagem sobre os problemas da turma. Os nossos filhos saem da escola sem saber distinguir os poderes do Presidente da República dos do primeiro-ministro, mas sabem desde a mais tenra idade que têm problemas, que estão numa turma com problemas e que a escola ela mesma é um problema que não se resolve, porque o Ministério da Educação não dá esse abstracto indispensável que é necessário para erradicar os ditos problemas.

Dir-me-ão que estas tolices curriculares também imperam no ensino privado. É certo que sim, mas também é certo que a preocupação em apresentar resultados leva, apesar de tudo, a alguma moderação. E aqui chegamos ao busílis da questão: a escola pública não muda, enquanto não existir liberdade de escolha dentro do universo das escolas públicas e entre estas e as privadas.

Note-se que a simples possibilidade de se escolher a escola pública que se quer é uma excepção. Todos temos vergonha do tempo em que os portugueses eram tão pobres que ensinavam os filhos a mentir, quando inquiridos sobre a sua idade nos transportes públicos. Pois agora mentem sobre o local onde vivem, de modo a que os seus pais possam escolher a escola pública que querem.

A possibilidade desses mesmos pais dizerem tranquilamente que preferem a escola A porque é melhor do que a B soa a blasfémia e é mais do que meio caminho andado para verem a sua pretensão recusada. Termos como melhor ou pior são absolutamente interditos neste universo. E não só nele. Note-se que a maior parte dos nossos dirigentes políticos e figuras públicas - sejam eles de esquerda ou direita - opta por, nos níveis do básico e secundário, colocar os seus filhos no ensino privado. Jamais dirão que fizeram essa opção porque acreditam que o ensino privado garante melhores resultados, mas sim porque "dá mais jeito", "fica mais ao pé de casa", "os amigos também foram para ali"... Às vezes dizem que os horários do público não são compatíveis, mas o assunto morre aí mesmo.

E assim os portugueses que pagam caro um sistema público de ensino não só não podem escolher a escola pública que querem - e que oficialmente é gratuita, o que levará um extraterrestre a pensar que se auto-sustenta -, como são também gravemente penalizados, caso optem pelo ensino privado. O que leva a que não se pondere sequer a possibilidade de o Ministério da Educação transferir para a escola pública ou privada indicada pelas famílias a verba que anualmente despende com cada aluno? Porque se teme que muitas escolas públicas ficassem às moscas. Os nossos filhos estão reféns da máquina.

Publicado por: lpedromachado às 15:24 | link | comments | A máquina com vida própria" target="_blank">del.icio.us
politica, sociedade, portugal, politicamente correcto, ensino

 

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