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José Manuel Fernandes
in jornal Público, suplemento Mil Folhas, 29 de Julho de 2006
Desde o clássico de Edward Gibbon, "The History of the Decline and Fall of the Roman Empire", publicado no final do século XVIII, que as razões e as consequências da queda do Império Romano do Ocidente têm fascinado e dividido os historiadores. Durante muito tempo - quase todo o tempo - as divergências centraram-se nas razões da queda de um império que durara cinco séculos e ainda possuía uma considerável força militar, convergindo os historiadores na visão de que a substituição do domínio romano pelo domínio dos diferentes povos "bárbaros" correspondera a um recuo civilizacional de que a Europa só se recomporia mil anos depois, com o Renascimento. Mas como não há frente em que o "politicamente correcto" não ataque, também nos últimos anos alguns académicos, tanto na Europa como nos Estados Unidos, têm vindo a alimentar a tese de que a "queda" não foi mais do que uma "transição" e que a Europa da Alta Idade Média conservara as qualidades que lhe permitiriam hoje associar-se num só "clube", a União Europeia.
Na verdade, como escreve o arqueólogo inglês Bryan Ward-Perkins neste seu "A Queda de Roma e o Fim da Civilização", este conceito - o de "fim de uma civilização" - "passou profundamente de moda". Tudo porque ""civilização" é uma palavra que as pessoas agora preferem não utilizar", substituindo-a pelo mais anódino conceito de "cultura", o qual não permite com tanta facilidade fazer distinções entre diferentes modos de vida: as "culturas" tendem a ter o mesmo valor (ou a ser vistas como tendo o mesmo valor), enquanto a "civilização" é certamente superior à barbárie. Ora "civilização" é mais do que "alta cultura", monumentos sofisticados e uma elite cheia de sabedoria: numa "civilização", ou numa sociedade civilizada, vive-se por regra melhor, cria-se mais riqueza, permite-se o acesso de mais gente a bens de consumo e a bens culturais, e por aí adiante. Se o declínio de uma "civilização" se pode notar, por exemplo, na lenta perda de qualidade da arte que produz (algo que um visitante atento pode notar, se visitar o Museu Romano de Mérida e comparar as obras mais antigas com as obras do final do Império, bem menos sofisticadas), também arrasta quase sempre consigo uma degradação da qualidade de vida do mais comum dos cidadãos. Este ângulo, por vezes menorizado, foi o que Bryan Ward-Perkins escolheu, até porque, como arqueólogo, estudou os vestígios que permitem perceber como se vivia no Império Romano e como se passou a viver depois de este ser varrido pelas hordas de invasores vindos do Norte e das estepes do Leste.
Ora, o que é que ele sublinha? Coisa simples mas significativas. Por exemplo: enquanto Roma dominou a Europa Ocidental e o Mediterrâneo, era possível a um modesto camponês comer num prato de cerâmica com uma qualidade que nem as mais faustosas cortes da Idade Média conheceriam séculos mais tarde. Ou que mesmo um humilde vendedor de perfumes de Pompeia sabia ler e escrever, podendo utilizar essa faculdade para se gabar, numa inscrição que deixou nas paredes da cidade destruída pelo fogo do Vesúvio, da sua última cópula com uma prostituta, e ler e escrever era uma faculdade a que séculos depois apenas tinha acesso a pequeníssima minoria de monges que habitavam os conventos mais eruditos. Ou ainda que se podia beber na Palestina vinho produzido na Ibéria, ou que as conservas de peixe do estuário do Sado chegavam à mesa de famílias da classe média espalhadas pela imensidão do Império. Não eram só os templos que eram bem construídos: as habitações dos mais humildes utilizavam durante o tempo dos imperadores romanos tijolos e telhas de melhor qualidade do que os palácios dos senhores feudais.
Naturalmente que todos os muitos achados arqueológicos a que o autor recorre para sustentar a sua tese do "recuo civilizacional" são apenas sinais de um mundo onde antes as mercadorias circulavam, onde se cunhava moeda, onde se tinham desenvolvido métodos sofisticados para melhorar a produção agrícola ou onde se lia e escrevia sem ter de pertencer a uma pequena elite, sinais que contrastam com o outro mundo que lhe sucedeu, onde nada disso era possível. Por isso, a queda do Império não foi uma mera "transformação", como certos estudiosos referem, mas uma verdadeira catástrofe. Não surpreende por isso que Ward-Perkins se indigne genuinamente com teses como a do historiador canadiano Walter Goffart, para quem aquilo "a que chamamos Queda do Império Romano do Ocidente foi uma experiência imaginativa que saiu um pouco fora de controlo". Não: "O fim do Ocidente romano foi testemunha de horrores e perturbações de um tipo que sinceramente espero nunca ter de viver; e destruiu uma civilização complexa, atirando os habitantes do Ocidente de volta a um padrão de vida típico da época pré-histórica."
Esta queda, que se produziu, na sua opinião, muito mais depressa e de forma mais inesperada e abrupta do que a previsível, se se tivesse assistido apenas a um lento declínio - e neste ponto o autor diverge da tese clássica de Gibbon -, acabaria por ser precipitada por erros políticos, pela degenerescência ética do Estado e dos seus líderes e, sobretudo, pelo colapso da estrutura económica que permitia a Roma manter os seus gigantescos exércitos. Na verdade, quando estes deixaram de proteger as populações contra as incursões dos bárbaros, estas deixaram de sentir que valia a pena pagar impostos; sem impostos não se podia pagar aos legionários e com menos legionários ainda havia menos protecção. Entrou-se assim numa espiral viciosa que provocaria o rápido desaparecimento do Império do Ocidente, algo que surpreendeu os próprios cidadãos de Roma. Daí o seu alerta: "Os romanos, antes da queda, estavam tão certos como nós estamos hoje de que o seu mundo continuaria para sempre substancialmente inalterado. Estavam errados. Seria errado repetirmos a sua complacência."
Depois de Jared Diamond nos ter descrito em "Collapse: How Societies Choose to Fail or Succeed" a forma como a civilização que ergueu as estátuas gigantes da Ilha da Páscoa se "suicidou" ao destruir os recursos naturais que a sustentavam, Ward-Perkins mostra-nos como outra civilização, esta muito mais poderosa, também desapareceu quase de repente e sem aviso. Ambas as narrativas não deixam dúvidas: não só a História não segue sempre um percurso linear de progresso, como o que vem depois de uma grande civilização é sempre pior, mesmo para os que antes se diziam seus escravos.
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A Queda de Roma e o Fim da Civilização
Autor: Bryan Ward-Perkins
Tradutor: Inês Castro
Editor: Alêtheia Editores, 2006
306 págs., 18€
Desidério Murcho
in jornal Público, suplemento Mil Folhas, coluna Valia a pena traduzir, 29 de Abril de 2006
A mesmíssima mentalidade que aplaude a prisão do historiador David Irving por negar o Holocausto tem de aplaudir os que negam a queda da civilização romana, e pelas mesmas razões: não é "politicamente correcto". Que seja verdade que o Holocausto existiu e falso que a civilização romana não tenha sido destruída pelos bárbaros é irrelevante. A liberdade de expressão é uma ilusão se não incluir a liberdade para dizer o que é globalmente tido como falso.
O historiador Bryan Ward-Perkins é membro do Trinity College de Oxford, co-organizou o vol. XIV da obra "The Cambridge Ancient History" e é autor do livro "From Classical Antiquity to the Middle Ages". Nesta obra, dirigida ao grande público, apresenta as razões centrais para defender a posição hoje proibida de que, de facto, a civilização romana foi destruída pelos bárbaros. A ideia multiculturalista e relativista agora em voga é que não se deve usar o termo "civilização", que sugere superioridade moral; não se deve pensar que a sociedade dos diferentes povos que invadiram o império romano era inferior, em qualquer aspecto, à sociedade romana; nem se deve pensar que a integração dos inadequadamente chamados "bárbaros" foi violenta - foi antes uma "movimentação de populações", que se integraram e que mudaram, mas não pioraram, o tecido cultural, económico, social e político do mundo antigo. Assim, em vez de se falar de idade das trevas, fala-se de antiguidade tardia. Bryan Ward-Perkins apresenta diversos dados e razões para pensar que esta posição é insustentável, por mais que seja politicamente correcta (é a posição da União Europeia e da European Science Foundation). Assim, se pegar a moda de prender historiadores que defendem o que não é politicamente correcto, Ward-Perkins tem os dias contados.
Este é um livro sóbrio, distanciado e objectivo, tratando com enorme bonomia e cortesia as posições que o autor pretende refutar - o que só por si é uma vitória do espírito humano. Recorrendo a dados arqueológicos e estudos pormenorizados, o autor mostra que em muitos aspectos a queda do império romano representou um retrocesso civilizacional de séculos - houve realmente uma idade das trevas. Ao invés de se deter nos grandes feitos de engenharia, por exemplo, ou na produção cultural, o autor argumenta que uma das marcas de um grau elevado de sofisticação civilizacional é a especialização do trabalho e a distribuição de bens correntes em grande escala e a preços baratos. E isso é precisamente o que se verifica durante o império romano, desaparecendo de seguida: uma vasta rede de distribuição de produtos baratos de grande consumo, acessíveis ao povo mais humilde. Com a queda do império, os únicos artigos que viajam grandes distâncias são luxos da nova aristocracia de origem bárbara.
Os historiadores que negam a queda violenta do império romano e a existência posterior de uma idade das trevas destacam a produção cultural de pendor religioso, que foi abundante neste período. Mas Ward-Perkins mostra que este fenómeno não refuta a ideia de que houve uma idade das trevas, pois durante o império romano a leitura e a escrita estavam de tal forma difundidas que era comum mesmo em famílias com poucos recursos - não era apanágio de uns poucos místicos iluminados.
Magnificamente bem escrita e documentada, directa e simples na sua apresentação, mas sofisticada no conteúdo, esta é uma obra para ler, reler e discutir.
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The Fall of Rome and the End of Civilization
AUTOR Bryan Ward-Perkins
EDITOR Oxford University Press
239 págs., 14.99 libras
www.oup.co.uk
Helena Matos
jornalista
in Público, 30 de Setembro de 2006
Sete alunos da Escola Secundária D. Inês de Castro, em Alcobaça, foram agredidos por dois jovens do sexo masculino, com 16 e 17 anos, que não frequentam aquele estabelecimento de ensino. O episódio ocorreu na última quinta-feira [21 de Setembro], por volta das 14 horas, mas só ontem [25 de Setembro], foi divulgado pela PSP. O facto de a escola não ter portaria facilitou a entrada dos autores das agressões, que, segundo a vice-presidente do conselho executivo da Escola D. Inês de Castro, Dulce Lopes, são da freguesia de Pataias, no mesmo concelho."
Este facto relatado pelo Jornal de Notícias na sua edição de 26 de Setembro não tem aparentemente nada de excepcional. As agressões nem sequer foram muito graves, sobretudo quando comparadas com outras ocorridas noutras escolas. Mas chamo contudo a atenção para a seguinte frase "O facto de a escola não ter portaria facilitou a entrada dos autores das agressões." Uma escola sem portaria? O que é estranho é que este dado não nos choca. Não deixa de ser peculiar que seguranças e contínuos nos interroguem ao que vamos quando entramos no edifício duma junta de freguesia e que simultaneamente consigamos entrar e sair dumas instalações escolares sem que alguém nos pergunte o que quer que seja.
Várias vezes me tenho interrogado sobre os profundos temores que levarão à proliferação de contínuos e seguranças - não raramente em perfeita duplicação e triplicação de funções - nos mais díspares serviços públicos como as bibliotecas, arquivos, centros de saúde ou até em instituições militares. Contudo, inúmeras escolas funcionam sem qualquer controlo de entradas e saídas.
Não duvido que os alunos podem igualmente ser agredidos em plena rua, mas também tenho a certeza que uma escola a funcionar sem portaria é uma escola que não deve funcionar.
A ausência de controlo de entradas e saídas nas escolas públicas - e quiçá em algumas privadas, mas esse é um problema delas e de quem lá coloca os filhos - é apenas um e nem sequer o mais grave problema do ensino público em Portugal. Digamos que é uma espécie de símbolo daquilo a que se chegou.
Mais do que ser um gigantesco sorvedouro de dinheiro, o ensino estatal constituiu-se em Portugal como um maquinismo de corda que se autonomizou da realidade. O ensino público não vive para servir o público - no caso os alunos -, vive para corporativamente se sustentar, o que já não é tarefa de pouca monta, dado o gigantismo da estrutura que, em nome da educação, tem sido montada ao longo de décadas e décadas. Mesmo que os alunos se volatilizassem, a engrenagem continuaria largos anos em funcionamento, reivindicando sempre mais funcionários. A escola pública não está concebida do ponto de vista dos alunos, logo um espaço onde existem tempos lectivos, não lectivos, refeições, saídas, entradas... Antes pelo contrário, a escola organiza-se segundo a delimitação das obrigações de cada grupo profissional: quem não tem obrigação de vigiar os recreios? Quem não tem obrigação de limpar isto ou aquilo? Quem não tem obrigação de ficar depois das 15h?... Não se trata de trabalhar pouco ou muito. Mal ou bem. Em muitas destas escolas e jardins de infância existem excelentes e dedicadíssimos profissionais. Mas falta a concepção de que a escola só existe, se tiver alunos. Que não basta dar uma óptima aula, se a seguir ninguém se preocupar com o facto de a escola não ter portaria ou de se praticar um horário absolutamente incompatível com os horários de trabalho das famílias.
De igual modo, os conteúdos não estariam transformados numa espécie de ode ao politicamente correcto e muito menos os tempos lectivos seriam ocupados com actividades que apenas resultam na fase de experiência pedagógica, com turmas escolhidas e professores escolhidos em escolas que também são aquelas por acaso. Por exemplo, qual tem sido o saldo global da disciplina que dá pelo nome de Área de Projecto? É certo que devem existir experiências maravilhosas para mostrar em power point nos seminários sobre o que se pode fazer nesta disciplina. Mas na generalidade os conteúdos aí abordados dificilmente ultrapassam uns considerandos vagos sobre assuntos como a vida maravilhosa das baleias ou a roda dos alimentos.
Este esvaziamento dos conteúdos penaliza claramente os mais desfavorecidos em termos de saber e de competências para aprender. A substituição das disciplinas em que se transmitem conhecimentos por aquelas em que se modelam atitudes tem o seu expoente na chamada Educação Cívica. Esta disciplina tornou-se numa espécie de exercício de metalinguagem sobre os problemas da turma. Os nossos filhos saem da escola sem saber distinguir os poderes do Presidente da República dos do primeiro-ministro, mas sabem desde a mais tenra idade que têm problemas, que estão numa turma com problemas e que a escola ela mesma é um problema que não se resolve, porque o Ministério da Educação não dá esse abstracto indispensável que é necessário para erradicar os ditos problemas.
Dir-me-ão que estas tolices curriculares também imperam no ensino privado. É certo que sim, mas também é certo que a preocupação em apresentar resultados leva, apesar de tudo, a alguma moderação. E aqui chegamos ao busílis da questão: a escola pública não muda, enquanto não existir liberdade de escolha dentro do universo das escolas públicas e entre estas e as privadas.
Note-se que a simples possibilidade de se escolher a escola pública que se quer é uma excepção. Todos temos vergonha do tempo em que os portugueses eram tão pobres que ensinavam os filhos a mentir, quando inquiridos sobre a sua idade nos transportes públicos. Pois agora mentem sobre o local onde vivem, de modo a que os seus pais possam escolher a escola pública que querem.
A possibilidade desses mesmos pais dizerem tranquilamente que preferem a escola A porque é melhor do que a B soa a blasfémia e é mais do que meio caminho andado para verem a sua pretensão recusada. Termos como melhor ou pior são absolutamente interditos neste universo. E não só nele. Note-se que a maior parte dos nossos dirigentes políticos e figuras públicas - sejam eles de esquerda ou direita - opta por, nos níveis do básico e secundário, colocar os seus filhos no ensino privado. Jamais dirão que fizeram essa opção porque acreditam que o ensino privado garante melhores resultados, mas sim porque "dá mais jeito", "fica mais ao pé de casa", "os amigos também foram para ali"... Às vezes dizem que os horários do público não são compatíveis, mas o assunto morre aí mesmo.
E assim os portugueses que pagam caro um sistema público de ensino não só não podem escolher a escola pública que querem - e que oficialmente é gratuita, o que levará um extraterrestre a pensar que se auto-sustenta -, como são também gravemente penalizados, caso optem pelo ensino privado. O que leva a que não se pondere sequer a possibilidade de o Ministério da Educação transferir para a escola pública ou privada indicada pelas famílias a verba que anualmente despende com cada aluno? Porque se teme que muitas escolas públicas ficassem às moscas. Os nossos filhos estão reféns da máquina.
Rui Ramos
historiador
in Público, 28 de Setembro de 2006
Há-de ser duro, aos 50 ou aos 60 anos, ver desmoronar-se o mundo em que se viveu. Mas é talvez ainda mais duro, aos 20 ou aos 30 anos, ver desmoronar-se o mundo em que se ia viver. É o que está a acontecer a muitos dos portugueses mais novos. Esta semana, os sinos oficiais continuaram a dobrar pelo mundo para o qual foram criados e preparados. Era um mundo em que qualquer curso universitário significava um emprego e em que havia empregos vitalícios. Um mundo em que as regalias eram regularmente acrescentadas e em que as reformas vinham cada vez mais cedo. Para os jovens actuais, esse foi o mundo dos avós e dos pais. Já não vai ser o deles. Cada novo anúncio das várias comissões de reforma e revisão nomeadas por este Governo faz empalidecer a fotografia da vida como era há cinco ou dez anos. Tudo parece que foi há muito tempo.
Acontece que estas mudanças não chegaram gradualmente ou com aviso prévio. As notícias apareceram em catadupa, de repente, em meados de 2005, depois de garantida a maioria absoluta de José Sócrates. Até aí, o país (lembram-se?) andou convencido de que só tinha um problema, chamado Santana Lopes. Nesses tempos, era preciso ser um leitor fiel de Medina Carreira para perceber que o mal não estava apenas no primeiro-ministro e que a eleição de Fevereiro de 2005 nunca poderia ser o fim de todas as dificuldades. Agora, até os modelos que então nos venderam são vistos a nova luz. Só agora sabemos que, afinal, os escandinavos, os espanhóis e os irlandeses não andam prósperos apenas porque puseram muita gente na escola, mas porque sofreram "ajustamentos" dolorosos há dez ou há vinte anos. Não era isso que nos tinham contado. Não espanta, por isso, que muita gente nas gerações mais novas tenha sido apanhada em contramão, desprevenida, com as qualificações e atitudes desadequadas para o mundo que surgiu em Portugal nos últimos meses.
Essa falta de preparação nota-se, por exemplo, no ensino superior, nessa forma mais benigna de abandono escolar que é a fuga aos cursos "difíceis". Difícil, segundo parece, é por definição todo o curso que tenha a ver com "matemática". Percebe-se porquê: em 2005, os exames de Matemática do 9.º ano produziram 70 por cento de negativas. Em parte por causa disso, as áreas de licenciatura mais produtivas continuam a ser aquelas em que os lamentos sobre a saturação do "mercado" são maiores. Não se trata de um simples caso de imprevidência ou irracionalidade. Os estudantes e as suas famílias reagiram simplesmente aos estímulos que lhes foram administrados. E esses estímulos passaram todos, até há pouco tempo, por um sistema de ensino em que a inclusão era mais importante do que a qualidade, e a auto-estima mais importante do que o esforço disciplinado.
Em poucas áreas os equívocos foram maiores do que no ensino. Em Portugal, inquéritos à origem social dos estudantes e contas sobre o rendimento previsível dos licenciados levaram sistematicamente à ideia de que um diploma era um "privilégio": para os bem-aventurados, era uma forma de se reproduzirem; para os outros, um meio de ascenderem. Era de facto assim. Mas a partir daí imaginou-se que a questão era expandir esse "privilégio" administrativamente, da maneira mais barata e expedita. A facilidade passou a ser encarada como um princípio de justiça social. A mínima referência à qualidade levava a suspeitas de "elitismo".
Gerações sucessivas atravessaram um sistema de ensino calafetado em geral contra qualquer forma de avaliação externa, onde a aquisição de competências e de conhecimentos foi frequentemente secundária em relação a objectivos de suposta inclusão social. Durante anos, enquanto o Estado, sempre em expansão, absorveu metade dos licenciados, tudo correu mais ou menos bem, por entre discussões inconclusivas acerca das "reformas estruturais". Foi assim quase até ao Verão de 2005. Então, subitamente, o mundo mudou. Agora, talvez demasiados jovens estejam condenados a descobrir que passaram pelo equivalente escolar das fábricas de têxteis e de calçado mais obsoletas. Pedem-lhes agora para competir num "mercado global". Hão-de perceber, da pior maneira, que o sistema de ensino não os habilitou verdadeiramente para nada que não fosse o mundo que acabou. Que vão fazer? Ou antes: que podem fazer?
Houve em Portugal gerações que gozaram a festa. Haverá um dia gerações que já não vão esperar festa nenhuma. Mas há, neste momento, gerações que foram convidadas para uma festa que acabou antes de eles chegarem. Histórias destas nunca terminam bem.
Nuno Pacheco
editorial do Público, 28 de Setembro de 2006
O cancelamento oficial da ópera Idomeneo em Berlim mostra que o medo pode impor-se à razão e que a chantagem da "irritabilidade" pode ser pretexto para deixarmos de ser livres
Já lá vão sete décadas, muitas delas tumultuosas. Em 1937, o cineasta Alexander Korda sugeriu a Charlie Chaplin que fizesse um filme sobre Hitler, caricaturando-o. Chaplin não levou logo a proposta a sério, mas, quando se decidiu a fazê-lo, fê-lo com afinco. Levou dois anos. A meio das filmagens de O Grande Ditador tentaram desencorajá-lo. Em Nova Iorque, Washington e Londres um filme que pudesse irritar os nazis não era visto com bons olhos. A censura poderia amputá-lo. A distribuição poderia recusá-lo. Mas Chaplin não se intimidou. Nem os nazis precisaram do filme para se "irritarem", como tragicamente se viu. Na estreia, voltaram as ameaças: de bombas de mau cheiro nas salas, tiros aos ecrãs, desordens durante as projecções. Na América, que ainda não entrara na guerra mundial que dilacerava a Europa, o filme foi um êxito. Mas também uma dor de cabeça. O Presidente Roosevelt disse laconicamente a Chaplin (é o cineasta que o recorda, na sua volumosa autobiografia): "O seu filme está a dar-nos muitos aborrecimentos na Argentina." Mas depois veio Pearl Harbor. E ninguém mais discutiu cinema, até a própria guerra inspirar Hollywood para fazer dezenas de lucrativos filmes.
Setenta anos passados, em pleno século XXI, ainda se discute se determinada obra deve ser exibida ou amputada para não "irritar" alguém. O caso mais recente é o da Deutsche Oper de Berlim, onde a reposição de uma encenação contemporânea do Idomeneo de Mozart (estreada em 2003) foi cancelada por receio de "acções de fundo terrorista". Na encenação, o rei de Creta, revoltado "contra a ditadura dos deuses", exibe as cabeças cortadas de Posídon, Jesus, Buda e Maomé. Como isso poderia ferir a sensibilidade dos muçulmanos, deu-se o cancelamento. Porquê? Porque pairam no ar ameaças à integridade física por parte dos islamistas mais intolerantes e radicais. Ninguém se preocupou com a sensibilidade de cristãos ou budistas, pelo simples facto de, apesar de eventuais protestos, abaixo-assinados ou manifestações contra qualquer coisa que não lhes agrade, não se esperar deles agressividade semelhante. Significa que a violência compensa, que o medo pode impor-se à razão e que a chantagem da "irritabilidade" pode ser pretexto para deixarmos de ser livres. E isso é mais intolerável do que todas as eventuais provocações a credos ou crenças, porque a liberdade destes nunca foi posta em causa pela arte. Pelo contrário: é a arte, por mais discutível que seja, que tem sido condicionada, censurada e até mesmo destruída pelas mais cegas crenças e poderes.
No discurso final de O Grande Ditador, Chaplin profetizava, sob a máscara de falso Hynkel: "Saímos das trevas para a luz. Entramos num mundo novo, num mundo melhor, em que os homens dominarão a sua cupidez, o seu ódio e a sua brutalidade." A utopia desfez-se com a II Guerra: saímos para as trevas. E a elas voltaremos, se deixarmos, pelo medo, apagar a luz da liberdade.
Esther Mucznik
Investigadora de assuntos judaicos
in Público, 29 de Setembro de 2006
No Ocidente europeu a religião tem má fama. Com a condescendência própria de quem já ultrapassou essa fase de obscurantismo, rimo-nos dos americanos que continuam a afirmar que "in God we trust", não entendemos os polacos que continuam - por enquanto - a encher as igrejas, olhamos com um misto de espanto e desprezo para os que em Portugal, França ou Itália continuam, apesar de tudo, a procurar a religião. O que os move?, é a pergunta que inevitavelmente aflora à nossa mente racional e racionalista.
Qual a razão deste desprestigiar da religião? Terá a ver com a separação entre o poder político e o poder religioso, com a autonomização da sociedade em relação à religião e progressiva secularização da mesma, iniciadas no tempo do Renascimento e das reformas protestantes e que conheceu na época das Luzes um momento decisivo? Estará a perda de prestígio da religião relacionada com a perda de poder político? Ou na incapacidade das instituições religiosas em se adaptarem a esta nova situação?
Uma das consequências da modernidade consistiu na passagem de um mundo, cujo fundamento social era a religião, a um outro no qual a sociedade passa a encontrar nela própria o seu fundamento, admitindo apenas como seu soberano os seus próprios representantes. O que Max Weber denominou de "desencantamento do mundo" não foi apenas uma simples separação institucional entre o religioso e o político, mas sim o processo através do qual a racionalidade foi conquistando progressivamente todas as esferas da vida: as crenças passam a ser consideradas ilusões, proclama-se a liberdade individual contra o dogmatismo e contra "a autoridade do eterno ontem". No mundo moderno, a religião deixou de orientar a existência colectiva, tornou-se uma opção individual entre outras.
A ideia positivista de que está ao alcance do homem e da ciência compreender, controlar e manipular os fenómenos naturais para melhorar a condição humana, conjugada com o materialismo marxista para quem a história se faz basicamente pela economia e pela política - subalternizando a cultura e a espiritualidade -, assim como a convicção radical nascida em França, em 1789, de que "revolução" significa ruptura com o passado, tudo isso levou ao surgimento do que se pode chamar um humanismo secular, substituindo-se às religiões. "O homem europeu", diz o teólogo católico George Weigel, "convenceu-se de que para ser moderno e livre tem de ser radicalmente secular." Tem de relegar para o museu das velharias a fé religiosa, assimilada a tudo o que é antiquado, bafiento, retrógrado e castrador da criatividade humana. Nomeadamente procurou apagar os fundamentos judaico-cristãos da civilização europeia, ajudando deliberadamente a esquecer a sua própria história - o debate a propósito do preâmbulo da Constituição Europeia é disso um exemplo esclarecedor.
Se olharmos os manuais escolares - que são sempre um barómetro da ideologia dominante numa determinada sociedade - apercebemo-nos desta realidade. Em Portugal, e creio que não será muito diferente noutros países europeus, eles praticamente omitem o papel das religiões. Nos anos decisivos da formação do adolescente - dos 11 aos 15/16 anos - não há nos manuais de Língua Portuguesa, de História e de Formação Cívica nenhuma introdução séria ao fenómeno religioso, mesmo da religião cristã, onde as poucas explicações pecam pelo simplismo e falta de rigor. O islão surge sob a forma simpática de lendas que alimentam a mitologia, nomeadamente de amores impossíveis entre cristãos e mouros e de relatos de bravura e honradez nos combates pela Reconquista. Ou então sob a forma de folclóricas encenações de casamentos árabes... Quanto ao judaísmo, é o que sai mais maltratado, em primeiro lugar pela ausência: nos manuais escolares, a religião judaica simplesmente não existe, nem como religião, nem como presença histórica, restam apenas os preconceitos, esses sim amplamente veiculados, e uns vagos textos alusivos ao Holocausto. E inevitavelmente, o relacionamento promíscuo com o conflito israelo-palestiniano. De uma forma geral, a religião surge como marginal à história da humanidade, a não ser como causa de guerras e atrocidades, e é definitivamente relegada para as aulas de Religião e Moral.
Os manuais escolares são apenas um reflexo do que se passa ao nível da sociedade: a religião eclipsou-se do espaço público e sobretudo do debate público, tornando-se progressivamente numa questão apenas do foro privado e individual, amputada da sua dimensão histórica e colectiva. Ou seja, de um lado a sociedade, o homem, a história, a razão e o progresso; do outro a fé que, privada da sua seiva, se vai estiolando ou pervertendo. Se há algo no discurso recente do Papa Bento XVI que nos interpela, é a condenação dessa marginalidade a que a humanidade progressista ocidental confinou a religião, neutralizando-a e tornando-a "inofensiva", porque esvaziada do seu conteúdo vivo e interveniente. Com duas consequências: em primeiro lugar, o de dar espaço ao extremismo religioso, em reacção radical à secularização; em segundo, tornando mais difícil o diálogo inter-religioso, porque só uma sociedade que dá espaço ao fenómeno religioso é capaz de o travar.
O século XX desmentiu todas as perspectivas radicalmente optimistas de um mundo convencido da sua auto-suficiência: duas grandes guerras, o Holocausto, o Gulag, milhões de mortos ao serviço de ideologias seculares, abriram uma profunda crise civilizacional e moral da Europa contemporânea, tornando-a incapaz de se defender, de defender os seus valores e a sua história, incapaz sequer de assegurar a sua demografia. O humanismo secular está em crise e, à medida que vai perdendo o fôlego, é previsível que a religião ocupe um lugar de maior relevo na sociedade. A questão que se coloca é: que religião? Não haverá alternativa entre o fundamentalismo literal e rigorista e o secularismo racionalista? Não haverá alternativa entre a teocracia e o laicismo radical? Acredito que sim, embora, nos tempos que correm, não pareça fácil. Mas esse é, em minha opinião, o caminho e a reflexão que tem de ser feita pelos pensadores e dirigentes religiosos.
Não se trata obviamente de regressar ao mundo pré-moderno, nem de pôr em questão a separação Estado-religião. A separação de poderes é uma característica da civilização ocidental e a tensão dela decorrente é fonte fecunda de criatividade. Não se trata, pois, de misturar o que não deve ser misturado. Trata-se sim de reflectir sobre o espaço e o papel da religião na sociedade, na sua moralização e elevação espiritual individual e colectiva. Se há um facto inquestionável na condição humana, é que uma comunidade não pode sobreviver a uma existência sem sentido, num universo desprovido de significado. O racionalismo filosófico é incapaz de fornecer esse significado e muito menos um código moral. Mas, no mundo ocidental, o código ético herdado da tradição judaico-cristã tem vindo a atenuar-se e a tornar-se irrelevante: o resultado é a confusão moral, o relativismo e a impotência em defender os seus próprios princípios.
Demasiado arredada do mundo real, a religião deve, pelo contrário, participar no espaço público, não apenas como guardiã indispensável da tradição, mas também com uma intervenção intelectual e social, ética e espiritual adequada à realidade de hoje. Caso contrário não faltarão alternativas para ocupar o vazio provocado pelo que David Hart chama de "aborrecimento metafísico".
Carlos Pacheco
historiador anglolano
in Público, 4 de Outubro de 2006
Essas esquerdas têm muita dificuldade em ajustar-se aos ritmos da democratização, as suas regressões autoritárias são frequentes. Elas, na verdade, são como estátuas cegas, embutidas nos seus fanatismos e crenças
Uma das questões que têm ocupado as minhas reflexões é saber qual o papel histórico das esquerdas no mundo, as suas ideias, influência e acção em prol do progresso e emancipação dos povos subdesenvolvidos no decurso do último meio século.
Por mais voltas que dê e estude os processos históricos na América Latina, em África e na Ásia, é-me difícil encontrar bons exemplos nas políticas nacionais e nos apoios internacionais que as esquerdas lhes deram. Uma das bandeiras de luta contra a opressão imperialista foi a chamada revolução terceiro-mundista que sectores da esquerda radical no Canadá, na Europa e nos Estados Unidos glorificaram a partir dos anos 60. Todavia, se se for a ver os resultados práticos dessas lutas, marcadas acima de tudo pela demagogia e pelo sectarismo, o balanço final é pouco lisonjeiro. Tirante as descolonizações, a história do Terceiro Mundo pouco mais é do que um repositório de ditaduras e caos: sociedades fragmentadas, economias destruídas, espaços de cidadania dissolvidos, guerras civis, genocídios e pobreza. Nem Angola, a "vanguarda da revolução em África", que as esquerdas em toda a parte saudaram, teve melhor destino. Coberto de cores vermelhas e esmagado pelas intimidações do Exército e de um aparelho policial omnipresente, o país afundou-se ao som da Internacional e em projectos confusos de estatização.
O diagnóstico de Nikita Khrutchov (1894-1971) sobre o socialismo na União Soviética de certa forma serve para comparar e analisar o que aconteceu noutras geografias políticas que lhe foram afins. Segundo ele: "[...] as portas deste país continuam fechadas e trancadas. Que espécie de socialismo é este? Que espécie de merda é esta, se temos de manter o nosso povo agrilhoado? Que espécie de ordem social? Que espécie de paraíso?"
As esquerdas alinhadas com o socialismo russo não fizeram caso destas palavras de indignação do ex-secretário-geral do PCUS. Todas se recusaram a olhar de frente a realidade, mesmo depois do "grande terror" estalinista. Apenas uma pessoa ou outra, mais lúcida, percebeu a "mentira verdadeira" sob a qual se ocultava o vazio daquele sistema político. A maioria, pelo contrário, preferiu deixar-se embalar no mito do paraíso socialista. Outras esquerdas viraram-se para a China Popular e para o mito da Revolução Cultural de Mao Tse-Tung. Sartre e outros pensadores defenderam essa fúria criminal que deixou um cortejo de milhares de mortes, saques e humilhações. Outras esquerdas abençoaram a ditadura sanguinária de Enver Hoxha, na Albânia (1944-1981), e ainda o regime de Pol Pot, no Camboja.
Mas será que este lastro sectarista nas esquerdas é coisa do passado? Se se observar atentamente o comportamento de determinadas correntes de esquerda - a não democrática e a esquerda totalitária -, percebe-se que ambas continuam a viver, em pleno século XXI, em busca de um tempo perdido. Os seus programas, a sua luta contra as desigualdades sociais, a sua concepção de política externa, dificilmente lhes abrem espaços de diálogo e conciliação com outras tendências. Essas esquerdas têm muita dificuldade em ajustar-se aos ritmos da democratização, as suas regressões autoritárias são frequentes. A sua identidade passa por Cuba e pelo regime bolivariano da Venezuela, cujos modelos políticos se alicerçam na figura do "homem forte" e providencial como chave para resolver as crises. Elas, na verdade, são como estátuas cegas, embutidas nos seus fanatismos e crenças. A leitura que fazem de si próprias e da realidade é desfocada. A sua estratégia de poder continua a ser a mesma de sempre: reforço do Estado e dos seus mecanismos de violência para permitir à classe trabalhadora "conquistar uma verdadeira soberania nacional"; só a "aliança com os camponeses e o povo pobre, sob a direcção da classe trabalhadora, através dos métodos da luta de classes", permite romper a dependência em relação ao capitalismo internacional; deixar uma porta aberta a uma "aliança com sectores da burguesia descontentes com o neoliberalismo" significa adoptar um "programa pseudonacionalista".
Sabemos no que deram estes prodígios doutrinários. Em nome da superação dos problemas de convivência social, e de primazia dada aos menos favorecidos, travou-se "uma guerra contra a natureza humana", como lembra o escritor Martin Amis ao estudar os bolcheviques, que levou à liquidação de sectores produtivos inteiros e à perseguição da burguesia rural e industrial na União Soviética. Eu próprio testemunhei estes métodos autoritários em Angola no reinado de Agostinho Neto contra os proprietários de terras, fábricas e outros bens que viviam mumificados pelo medo e pelo aviltamento. Como reagiram a estes acontecimentos as esquerdas filo-comunistas e socialistas na Europa e nos Estados Unidos? Calaram-se e aprovaram com o seu silêncio estas irracionalidades do Estado africano e do seu partido governante por as considerarem decisões revolucionárias de grande impacte destinadas a resolver as dificuldades económicas e sociais do país.
É exactamente uma dessas esquerdas, de cariz socialista radical, que veio agora por meio de um manifesto apoiar a candidatura da senadora Heloísa Helena às eleições presidenciais no Brasil. São mais de três centenas de personalidades, entre prestigiados intelectuais do Primeiro Mundo. A sua figura emblemática é o norte-americano Noam Chomsky, linguista e politólogo, autor de vasta obra, o mesmo que há uns anos enaltecia o combate dos khmer vermelhos. Francisco Louçã, deputado português do Bloco de Esquerda, é outro dos signatários. Justificam eles o seu aggiornamento com o argumento de que o Governo de Lula da Silva deu continuidade às "mesmas políticas económicas neoliberais dos Presidentes de direita anteriores, gravosas para a situação de "apartheid social" do povo brasileiro, e que os escândalos de corrupção em toda a administração central do Estado trazem a figura do Presidente desacreditada. Nesta perspectiva, eles entendem que o único aspirante presidencial capaz de devolver dignidade ao cargo é a candidata do PSOL [Partido, Socialismo e Liberdade], vista por eles como um castelo de pureza ética e coerência política. Só ela seria capaz de realizar transformações económicas de fundo, pensar nos mais pobres, dar impulso à reforma agrária, suspender o pagamento da dívida externa com o FMI e rejeitar a Área de Livre-Comércio das Américas [ALCA].
Mais uma vez, estas esquerdas nos brindam com um estreito critério de análise ao desvirtuarem a realidade brasileira - com a sua imensa complexidade social e política - e adaptando-a aos seus cânones e versões ideológicas. De um lado estão os bons, os revolucionários, do outro os maus, os capitalistas. Efectivamente, elas assemelham-se a "pedantes pregoeiros", como diria o poeta italiano Eugenio Montale, quando defendem, ora o rompimento de compromissos do país com a globalização, ora uma fiscalização apertada sobre o capital financeiro internacional. São patéticas e vulgares. Se o Brasil é um títere manipulado pelo colosso do Norte, de certeza não são estas soluções que o podem salvar. Quando muito provocariam o seu desmoronamento.
João Cândido da Silva
in Público, 30 de Setembro de 2006
Quem abdica de uma liberdade essencial em troca de segurança temporária não merece a liberdade nem a segurança. A frase é de Benjamin Franklin e serve na perfeição para ilustrar o risco associado a sucessivos episódios em que, na confrontação com o fanatismo religioso que as pretende destruir, as sociedades ocidentais vão dando sinais de estarem dispostas a baixar os braços, sem dar luta. Ao cancelar a exibição de uma ópera de Mozart em que o deus grego Posídon, Cristo, Buda e Maomé surgem decapitados nas mãos do rei de Creta, a Ópera de Berlim ofereceu mais um argumento para que, no islão, quem pratica a violência e propaga uma nova ameaça totalitarista sobre o mundo livre considere a sua estratégia de terror e intimidação plenamente compensadora.
Em defesa da decisão, já se escutaram argumentos diversos. No fundo, todos tentam disfarçar, sem sucesso, o medo como verdadeira explicação para se chegar ao ponto, impensável, de começar a ser difícil detectar qualquer vestígio de dignidade e crença em valores essenciais, como mostra o caso de Berlim. A encenação prevista é de qualidade duvidosa? A liberdade que ainda vigora em países como a Alemanha permite que quem partilhe essa opinião a expresse sem constrangimentos. É para isso que existe a crítica ou a simples faculdade de cada um poder decidir a que espectáculos quer assistir e aqueles a que, por qualquer razão, não pretende destinar um único segundo da sua atenção.
Proibir um evento, como uma ópera, por não se gostar das opções do encenador é um acto absurdo para quem ainda acredite que as sociedades ocidentais encontraram uma forma de se organizar que, não sendo perfeita, é a pior, se exceptuarmos todas as outras, como diria Churchill. Percebe-se muito bem por que motivos este argumento vai surgindo. É o medo e o cinismo ditado por razões ideológicas que estão na sua base. O objectivo é o de desvalorizar o acontecimento, como quem afirma que, no fim de contas, nem se perdeu nada que valesse realmente a pena. É por aqui que se começa a deixar que o receio da violência controle as decisões mais banais como a programação de uma temporada de ópera. Saltitando de cedência em cedência, e de forma voluntária, o dia em que a capitulação se transformará de parcial em total vai ficando menos longínquo.
A cena final de Idomeneo, tal como estava prevista, poderia ferir susceptibilidades e provocar reacções iradas entre os fanáticos muçulmanos? O aviso das autoridades alemãs parece prudente. É equivalente a alertas da mesma natureza que surgem de cada vez que espectáculos musicais ou desportivos são classificados de risco. Numa sociedade livre, em casos destes há que tomar providências para que os abusos de uns não interfiram com a liberdade de outros. Em Berlim, no entanto, optou-se por outra via. A liberdade de uns foi colocada na guilhotina, com o objectivo de defender quem comete os abusos. Como retrato da pusilanimidade que grassa pela Europa fora, a situação fala por si.
A pressa com que no Ocidente se desculpam as agressões, a intimidação e agora, também, a autocensura é explicada com a necessidade de não colocar achas na fogueira e impedir o alastramento do radicalismo e da base de recrutamento dos grupos terroristas que legitimam o homicídio através da religião. Trata-se de um engano. Tal como na luta contra os totalitarismos que subjugaram a Europa no século XX, um dos pontos essenciais no actual confronto está em afirmar os valores e as convicções que configuram as democracias liberais ocidentais e não em varrê-las para debaixo do tapete, como se fossem um mero incómodo. Seria necessário demonstrar aos fanáticos que não terão o caminho facilitado e seria ainda mais importante passar a mensagem para os moderados, que se envergonham da má fama que os fundamentalistas dão ao islão, de que não estão sós. Infelizmente, não é nada disto aquilo a que se vai assistindo.
A propósito da recente intervenção de Bento XVI ou da subida à cena da obra de um compositor que ilustra o que de mais brilhante foi produzido pela civilização ocidental, descartam-se as convicções e mandam-se as liberdades e o pluralismo pelo cano abaixo. Proíbe-se a ópera e adere-se à opereta. Não foi assim que se derrotou o fascismo e o comunismo. Nem será desta forma que o Ocidente conseguirá sobreviver ao grave desafio que paira sobre os seus destinos. Por cada metro quadrado de liberdade que for cedido ao fanatismo de inspiração islâmica, outro metro quadrado ficará ameaçado.
Manuel Carvalho
editorial do jornal Público, 30 de Setembro de 2006
O PT esqueceu o seu ideário e a sua história, varreu para a memória o capital de esperança que tinha semeado nos brasileiros e sucumbiu aos vícios do poder
À superfície, o balanço da presidência de Lula da Silva parece justificar a sua reeleição à primeira volta: a economia cresceu, a estabilidade macroeconómica está garantida, o número de brasileiros a viver abaixo do limiar da pobreza extrema reduziu-se e Lula resistiu às duas doenças endémicas da política da América Latina, o despotismo e o populismo. Para os que recearam o caos com a tomada do poder de um operário metalúrgico formado na luta de classes, o desempenho de Lula e do PT só podem ser surpreendentes. Mas, para a esquerda mundial que vislumbrou nas eleições de Outubro de 2002 a abertura da primeira frente de combate ao neoliberalismo impante, o balanço é muito mais que decepcionante: é quase trágico. Os resultados da economia são um sucesso, porque Lula a interpretou seguindo a analogia do poder prescrita por Juan Péron: encarou o poder como um violino, tomou-o com a esquerda e tocou-o com a direita; depois, o que se anunciava como uma promessa de regeneração ética acabou por resultar num governo profundamente abalado pelos escândalos e pela corrupção.
O sucedido explica-se em boa parte pela influência da costela leninista do PT. O princípio segundo o qual o que era bom para o partido era bom para o Estado revelou-se de imediato. Para os seus dirigentes, o projecto de poder justificava todos os atropelos à ética e todos os atentados à transparência democrática. Com o "mensalão", com o escândalo das "sanguessugas" e, mais recentemente, com a compra de alegados documentos incriminatórios do principal opositor de Lula, o PT esqueceu o seu ideário e a sua história, varreu para a memória o capital de esperança que tinha semeado nos brasileiros, sucumbiu aos vícios do poder e apresenta-se nestas eleições com a aura de quadrilha organizada. Que tanto parece capaz de comprar consciências, como de forjar provas para se libertar de acusações, como de inventar requintados esquemas para roubar o erário público.
Os brasileiros sabem quem deveria responder por estes e muitos outros crimes contra o Estado. Sabem que Lula e os dirigentes do PT são do mesmo extracto da restante classe política brasileira. Sabem que, em vez de cumprirem as promessas de limpeza ética, se habituaram à mentira e à corrupção. Ainda assim, parecem querer dar outra vez o poder a Lula. Porque com Lula deixaram de acreditar na decência, na probidade ou na generosidade dos políticos. Um político sem palavra, carácter ou honra pessoal é uma simples consequência da lógica. Para o povo iletrado do Nordeste ou para intelectuais do Rio (como o pianista Wagner Tiso), a associação entre a política e corrupção não só é normal, como irreversível.
Lula, finalmente, parece em condições de provar a eficácia da mensagem política do populista Adhemar de Barros, que nas suas campanhas proclamava: "Roubo, mas faço." Lula, de facto fez, mas à custa da ruína moral da democracia brasileira. O país que não se vergou a Collor deixará para o futuro a lição de que se pode sobreviver no quadro democrático sob o lastro da manipulação e do roubo. O Brasil está hoje mais rico, mas, ao reeleger Lula, dá provas de que se resignou a viver em paz com um cancro moral que lhe corrói a alma colectiva.
José Caldas
leitor do Porto do jornal Público, na secção Cartas ao Director.
30 de Setembro de 2006
A actual polémica entre o islão e o Ocidente tem, pelo menos, o mérito de colocar na ordem do dia o tema tão polémico e pantanoso da "sensibilidade" e "susceptibilidade" ofendidas. Com efeito, em tempo algum, como no presente, tanta gente se melindrou tanto por tão pouco.
Este conceito (a sensibilidade) que emerge, gradualmente, em paralelo com a ascensão do individualismo moderno, suportado pela exaltação do eu e das suas necessidades e fragilidades, é sustentado e legitimado pela influência e expansão da psicanálise, do marketing e das actuais democracias garantistas e assistencialistas, nos últimos 30/40 anos.
O problema central da "sensibilidade" é que ele se revela totalmente refractário e impermeável à discussão racional. Quando alguém se diz ofendido ou agastado é impossível confirmar ou infirmar tal posição a partir de argumentos válidos e objectivos, o que torna este conceito altamente susceptível a manipulações e abusos.
Ora a "sensibilidade" mais não é do que um mero estado de espírito que reage com indignação e melindre ao "sentir-se ofendido". Dado que este "sentir-se ofendido" pode ter causas tão diversas como pura má interpretação, má-fé, estupidez, manha, arrogância ou sobranceria, exige-se uma grande dose de prudência e bom senso ao lidar com este tipo de situações, potencialmente explosivas e torrenciais.
Parecem-me existir, pelo menos, duas situações em que o recurso ao "melindre pela sensibilidade ofendida" é, manifestamente, inaceitável.
Na primeira, essa "sensibilidade" resulta de um puro exercício de oportunismo e calculismo hipócritas e apresenta-se como um disfarce conveniente, através do qual se procura obter vantagens e benefícios particulares, explorando a compaixão, ingenuidade ou piedade alheias. Como exemplo, atente-se nas frequentes tentativas de obter compensações chorudas junto do Estado ou empresas privadas por "falhas ou erros" que resultam, as mais das vezes, da inevitável complexidade das situações ou da displicência ou negligência do utente.
Na segunda, o "melindre" assenta na intolerável presunção, individual ou colectiva, de tentar impor a terceiros agendas ou convicções particulares e, simultaneamente, exigir total imunidade ou isenção críticas da parte dos terceiros afectados. Neste caso, a dita "sensibilidade" mais não representa do que uma estratégia torpe de intimidação e ameaça à liberdade de expressão e opinião, que não pode ser tolerada.
Na raiz do problema, surge a confusão, voluntária ou distraída, entre duas situações diversas que urge distinguir: uma é o direito individual em abraçar quaisquer crenças ou convicções do agrado próprio, desde que da sua prática não resultem prejuízos a terceiros; outra é forçar esses mesmos terceiros a "respeitar ou silenciar críticas" a essas crenças ou convicções, sobretudo quando elas lhes são impostas pelo medo ou pela violência.
A clarificação destas duas posições mostra que o Ocidente está a assumir uma posição perigosamente defensiva em relação à pretensa susceptibilidade do islão, a qual resulta de uma vontade ou capricho (que não quer ser contrariado) de impor a outrem as suas convicções e não de uma qualquer situação de injustiça ou discriminação. Aliás, não há memória de um tal esforço de contenção e autocensura em relação a uma religião como aquela que, nos últimos anos, tem sido manifestada pela inteligentsia e media ocidentais em relação ao islão.
É certo que as exigências da civilidade e da boa convivência social não recomendam uma atitude sistemática de hostilidade e provocação em relação a terceiros, sobretudo por motivos fúteis e gratuitos; mas também já é tempo de o Ocidente se libertar da canga traumática do "fardo do homem branco" e dos "males do progresso" e saber fazer frente, de modo descomplexado e corajoso, ao medievalismo fanático e intolerante que, grassa já, de modo inquietante e descarado, no seu seio.
Pedro Magalhães, politólogo
in Público, 25 de Setembro de 2006
Nos seis meses que precederam as eleições presidenciais brasileiras de 2002, o real perdeu 40 por cento do seu valor e o índice de bolsa de São Paulo baixou cerca de 30 por cento. Em Junho desse ano, Alan Greenspan, chefe do banco central americano, avisava que "a causa da crise brasileira é política", não deixando dúvidas sobre a relação entre a situação económica e a liderança de Lula nas sondagens. George Soros avançou a previsão de que o destino do Brasil, caso Lula viesse a ser eleito, seria igual ao da Argentina. Só no The Economist, sempre sensato acima da média, se avisava que Lula não era uma "perspectiva assim tão assustadora" (29 de Junho de 2002). Mas o problema, adiantava-se, é que "os mercados têm o hábito de levar a sua avante mesmo quando estão errados. As previsões de colapso financeiro tendem a auto-realizar-se".
Sabemos hoje que o colapso financeiro previsto por Soros e muitos outros não se realizou. Muito pelo contrário. Chegado ao poder, Lula adoptou o mesmo "financismo" que, no passado, tanto tinha criticado a Fernando Henrique Cardoso, mantendo o controlo da inflação e da despesa como elementos centrais da política macro-económica brasileira. As taxas de juro permaneceram elevadas, o crescimento da despesa foi limitado e as receitas fiscais cresceram. Ao mesmo tempo, Lula conseguia fazer algo em que FCH tinha fracassado: uma reforma do sistema de segurança social, aumentando a idade de reforma e os níveis de contribuição dos funcionários públicos e estabelecendo tectos para as pensões mais altas. O Brasil recuperou a sua credibilidade nos mercados financeiros e a taxa de inflação baixou para menos de 10 por cento. E beneficiando da procura internacional, as exportações e a utilização da capacidade industrial cresceram. Em 2004 e 2005, a taxa de crescimento económico situou-se acima dos quatro por cento.
Uma história de sucesso? Em grande medida, sim. O facto da alternância entre FHC e Lula ter trazido uma fundamental continuidade de políticas macroeconómicas só pode ser visto favoravelmente, especialmente no contexto da América Latina, quase sempre mergulhada num círculo vicioso de alternância entre o neo-liberalismo mais selvagem e o radicalismo de esquerda mais populista. Parte desta continuidade é explicada pelos poderosos constrangimentos que a globalização económica e financeira coloca à margem de manobra dos governos. Mas a transformação de Lula e do PT tem raízes mais fundas. Por um lado, após sucessivas derrotas eleitorais, Lula foi-se apercebendo que o "financismo" de FCH não agradava apenas a uma minoria do eleitorado, mas sim a todos aqueles cujos salários tinham sido quotidianamente devorados pela hiper-inflação. O espaço eleitoral para o aventureirismo nas políticas sociais e económicas era, afinal, reduzido. Por outro lado, foi o próprio PT que se transformou. Como assinala David Samuels, num artigo de 2004 na Comparative Political Studies, a passagem do PT pelo poder local e estadual e a crescente heterogeneidade social da sua base sindical criaram incentivos para que se tornasse cada vez mais pragmático e moderado. Por outras palavras, o PT deixou de ser um "movimento político" que se podia comprazer, enquanto força de oposição, no radicalismo ideológico. Tornou-se um partido, obrigado a mover-se mais nos corredores do poder do que na rua ou nas fábricas.
Contudo, é precisamente aqui que começa o problema. No sistema político brasileiro — com separação entre poderes executivo e legislativo, poderosos governos estaduais, um sistema partidário fragmentado, caciquismo local e autonomia dos deputados em relação aos partidos — mover-se "nos corredores do poder" significa ter que fazer aquilo que todos os partidos de governos sempre fizeram: comprar e vender votos, trocar favores, cargos e posições e ver uma parte significativa das despesas do Estado empregue na cooptação de parceiros de coligação e dos muitos deputados e poderes sub-nacionais cujo apoio é necessário "comprar". Não é fácil saber se o PT terá, nesse domínio, ultrapassado a fronteira da legalidade com maior ou menor entusiasmo que os seus predecessores. Mas há pelo menos duas coisas que são certas. Por um lado, a reputação do PT como "partido limpo", conquistada durante o seu longo período na oposição, foi irremediavelmente perdida. Por outro lado, muitos dos recursos que seria necessário empregar em programas de promoção da saúde, da educação e de melhoria das condições sociais dos mais pobres encontram-se, como sempre, capturados por interesses particularistas.
Lula, contudo, vai conseguindo sobreviver. Quando escrevo este artigo, as mais recentes sondagens publicadas davam-no como vencedor à primeira volta nas eleições do próximo domingo. O "mensalão" não se lhe colou directamente à pele e os benefícios sociais que acabou por conseguir distribuir directa e indirectamente — o aumento do poder de compra dos salários, a diminuição do desemprego e a "bolsa família" — têm sido, pelos vistos, suficientes para compensar a perda de credibilidade noutros domínios. Veremos o que sucede até ao dia da eleições, agora que um novo escândalo envolve o PT e abala ainda mais a sua reputação.
O problema, contudo, é de mais longo prazo. Os magros benefícios sociais distribuídos pelo governo têm dependido em grande medida de um clima económico internacional favorável. A capacidade de Lula para desviar a responsabilidade pela corrupção para o PT não é ilimitada e, de resto, acabará sempre por minar o apoio legislativo de que precisa para avançar com mais reformas estruturais. Há muitos países — como o nosso — em que o discurso recorrente acerca da reforma das instituições políticas parece ocioso, um elemento de retórica política com o qual se pretende desviar a atenção do fundamental. No Brasil, contudo, nada é tão urgente e imperativo como reformar um sistema eleitoral e de governo cujo funcionamento é um convite à corrupção, ao clientelismo e à irracionalidade na alocação dos recursos. Sem ela, as profecias de colapso podem vir a pecar apenas por atraso.
Anne Applebaum
applebaumanne@yahoo.com
Colunista do Washington Post,
autora do livro Gulag: Uma História
in Público, 21 de Setembro de 2006
Texto original disponível no sítio do Washington Post. Aqui:
Enough Apologies
Palestinianos irados atacaram já sete igrejas em Gaza e na Cisjordânia, destruindo duas delas. Na Somália, homens armados mataram uma freira italiana idosa. Líderes religiosos radicais, do Qatar a Qom [cidade iraniana], pediram desde um "dia de raiva" até os fiéis "perseguirem" o Papa e os seus seguidores.
Da Turquia à Malásia, políticos muçulmanos condenaram o Papa e afirmaram que o seu pedido de desculpas é "insuficiente". E tudo isto porque Bento XVI, falando na Universidade de Ratisbona, citou o imperador bizantino que, há mais de 600 anos, afirmou que o islão era uma fé "difundida pela espada". Já vimos isto, claro.
Protestos semelhantes foram provocados no Inverno passado pelos cartoons representando o profeta Maomé na imprensa dinamarquesa. Seguiram-se pedidos de desculpa semelhantes, ainda que o de Bento seja mais surpreendente do que o do Governo dinamarquês. Ninguém, aparentemente, se consegue lembrar de que algum papa, nem sequer o "media friendly" João Paulo II, a pedir desculpa de algo em termos tão específicos: nem pela Inquisição, nem pela perseguição de Galileu, e certamente não por um comentário feito a uma audiência académica numa cidade alemã sem importância.
Mas as reacções ocidentais aos "dias de raiva" muçulmanos também seguiram um padrão semelhante. No Inverno passado, alguns jornais ocidentais defenderam os seus colegas dinamarqueses, alguns até publicando os cartoons — mas outros, incluindo o Vaticano, atacaram os dinamarqueses pela ofensa.
Alguns líderes católicos defenderam agora o Papa — mas outros, sem dúvida alguns dinamarqueses, queixaram-se de que a sua declaração deveria ter sido mais bem examinada, ou não ter sido sequer proferida. Isto não é surpreendente. Por definição, o Ocidente não é monolítico. Jornalistas de esquerda não se identificam com colegas de direita (ou colegas católicos de direita) e vice-versa. Nem todos os cristãos, já para não falar dos católicos — mesmo todos os católicos alemães —, se identificam com o Papa, e certamente não querem defender a sua muito académica citação.
Infelizmente, estas distinções subtis perdem-se entre os fanáticos que deitam fogo a embaixadas e igrejas. E também podem impedir que todos nós encontremos uma resposta útil às ondas de ira e violência que periodicamente, envolvem partes do mundo muçulmano. Claramente, uma mão-cheia de desculpas e algum debate público impensado — deveria o Papa ter dito "x", deveria o primeiro-ministro dinamarquês ter dito "y" — são ineficazes e irrelevantes.
Nenhum dos líderes religiosos radicais aceita as desculpas ocidentais e nenhum dos seus seguidores radicais lê a imprensa ocidental. Em vez disso, políticos ocidentais, escritores, pensadores e oradores deveriam parar com os pedidos de desculpas — e começar a unir-se.
Com isto, não quero dizer que todos tenhamos de defender ou analisar este sermão em particular, deixo isso para os peritos em teologia bizantina.
Mas podemos todos unir-nos no apoio à liberdade de expressão — certamente que o Papa pode citar textos medievais — e de imprensa. E também podemos unir-nos, ruidosamente, na nossa condenação de violentos e não provocados ataques a igrejas, embaixadas e freiras idosas. Por "nós" quero dizer a Casa branca, o Vaticano, os Verdes alemães, o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, a NATO, a Greenpeace, o Le Monde e a Fox News — instituições ocidentais de esquerda, direita e tudo o que está no meio.
É verdade que estes princípios soam como muito elementares — "somos a favor da liberdade de expressão e da antiviolência gratuita" —, mas nos dias que se seguiram ao sermão do Papa, não sinto que os tenha ouvido defendidos em nada que se parecesse a um coro unânime. Muito mais tempo foi passado a analisar o que o pontífice queria dizer, ou deveria ter dito, ou poderia ter dito se tivesse sido mais bem aconselhado.
Tudo isto passa da questão central, já que nada do que o Papa tenha alguma vez dito chega sequer perto do extremismo e da raiva que saem da boca dos líderes religiosos radicais todos os dias, na Europa e no mundo muçulmano, quase sem provocar qualquer resposta Ocidental. E talvez devesse ser altura para isso: quando a Arábia Saudita publica textos escolares que mandam os bons muçulmanos wahhabitas "odiar" cristãos, judeus e muçulmanos não wahhabitas, por que não deviam o Vaticano, os baptistas do Sul, o supremo rabi britânico e o Conselho para as Relações Americanas-Islâmicas condená-lo, simultaneamente?
Talvez seja um sonho fantástico. O dia em que a Casa Branca e a Greenpeace possam assinar uma declaração comum soa realmente distante. Mas se comentários avulsos de líderes ocidentais — já para não falar de filmes, livros, cartoons, tradições e valores — vão inspirar violência regular, não acho que seja demais pedir ao Ocidente para parar de pedir desculpas e unir-se, ocasionalmente, em sua própria defesa.
Os fanáticos que atacam o Papa já limitaram esse direito à liberdade de expressão aos seus próprios seguidores. Não vejo por que deveríamos deixá-los limitar também o nosso direito à liberdade de expressão.
António Paim
Professor de ciência política
in Público, 18 de Setembro de 2006
Em 2006, a nova legislação britânica e francesa permitiu situar balizas, tomando como referência - explícita ou implicitamente - alguns dos valores essenciais da nossa cultura
O imperativo de superar os equívocos do multiculturalismo, no relacionamento com os muçulmanos na Europa, resulta da comprovação de que o propósito dos islamitas radicais é ressuscitar os tempos do enfrentamento militar entre o Islão e o Ocidente. O seu Calcanhar de Aquiles e a nossa vantagem flagrante advêm do fato de que os últimos séculos de convivência não podem ser ignorados. Comprovam que podemos (e devemos) coexistir pacificamente, o que não significa ignorar divergências e dificuldades.
Em fins de 2005, na colaboração habitual que mantém em jornais europeus, Francis Fukuyama advertia para a necessidade da Europa reconhecer o que então denominou de "Jihad dentro de casa". A degolação ritual do holandês Theo Van Gogh (nome fácil de guardar pela associação, ainda que indevida, ao grande pintor), ocorrida em Novembro de 2004, por muçulmano nascido e educado na Holanda, correspondeu ao primeiro grande choque com uma realidade - que muitos ainda hoje parecem não ter levado em conta, inclusive responsáveis governamentais -, embora tivesse sido antecedido pelo atentado de 11 de Março daquele ano, em Madrid. Talvez devido a questões de ordem interna, este último se não passou em brancas nuvens, também não mereceu maior atenção. Contudo, os atentados bombistas de 7 de Julho do ano seguinte, em Londres, tiveram o mérito de repor o tema em seu devido lugar. Resumindo a questão em termos apropriados, escreve Fukuyama: "países como Holanda e Grã-Bretanha precisam de inverter as políticas multiculturalistas contraproducentes, que criaram refúgio para o radicalismo, e têm de reprimir aos extremistas."
Em 2006, a nova legislação britânica e francesa permitiu situar balizas, tomando como referência - explícita ou implicitamente - alguns dos valores essenciais da nossa cultura. Assim, por exemplo, a tolerância religiosa deixa de constituir o princípio determinante naquele relacionamento. A sua admissão pressupõe a clara distinção, no que se refere aos muçulmanos, ao que seria, para nós ocidentais, a manipulação da religião com fins políticos. As próprias comunidades muçulmanas vão acabar convencendo-se que lhes incumbe tomar o partido do país que as acolheu. A rejeição e a denúncia de toda pregação radical tornar-se-ão progressivamente uma condição da própria normalidade de suas vidas. Não se pode impedir generalizações indevidas, de parte daqueles cujos familiares tenham sido vítimas de atentados terroristas.
Os recentes atentados abortados na Inglaterra, quando mais uma vez os protagonistas são de famílias de imigrantes, nascidos e educados no país, serviram para disseminar o reconhecimento da responsabilidade do multiculturalismo na criação do caldo de cultura propício a fenómenos daquela ordem. Esse reconhecimento achava-se limitado ao mundo académico, a exemplo da pesquisa coordenada pela professora Maria do Céu Pinho, da Universidade do Minho, dedicada ao tema O Islão na Europa (2006), que tive oportunidade de comentar. Agora a Ministra das Comunidades do Reino Unido, Ruth Kelly, destaca que "o consenso quase unânime sobre o multiculturalismo já ficou para trás." E encarece a necessidade de ser dado mais um passo: "deve ser questionado se este valor não tem contribuído para encorajar a separação entre comunidades" (PÚBLICO, 25/08/2006).
No novo ciclo de debates acerca do tema em causa, na Inglaterra, mais uma vez apareceu a tentativa de "salvar a face" dos candidatos a bombistas, sob a alegação de que o alinhamento britânico aos Estados Unidos, no Iraque, alimenta ressentimentos. Numa sociedade de democracia consolidada corresponde a uma tautologia referir divergências de ordem política. As pesquisas medem-nas com regularidade. Por isto mesmo, não se pode admitir o recurso a meios violentos para manifestar esse ou aquele desacordo. As regras da nossa convivência nesse plano não estão em causa. Lembro aqui a afirmativa de Nicolas Sarkozy referida em artigo anterior, segundo a qual "colocar uma bomba na Córsega ou assassinar um autarca não é um acto político mas simplesmente um crime". No caso de atentados a meios colectivos de transporte acrescentaria que se trata de um crime hediondo. Ademais, esse tipo de argumento induz comunidades muçulmanas a dispensarem-se de manifestar a sua solidariedade com as vítimas da agressão, se não quiserem identificar-se com os agressores e arcar com as inevitáveis consequências.
Esther Mucznik
investigadora em assuntos judaicos
in Público, 15 de Setembro de 2006
Neste quinto aniversário do 11/9, já era de esperar o habitual coro de críticas, acusações e ataques dirigidos, não como seria natural, à Al-Qaeda ou ao terrorismo internacional, mas sim à América e à Administração Bush: "A política americana incentiva o terrorismo"; "Bush igual a Bin Laden"; "a América tornou o mundo muito mais perigoso"; "as respostas ao terrorismo são piores do que o próprio terrorismo"; "o apoio americano a Israel estimula o terrorismo"... Em resumo, a dar ouvidos a numerosas vozes públicas e privadas, hoje a principal ameaça à segurança e à paz mundial é a América.
Tudo isto era de esperar, dada a nossa propensão doentia à autoflagelação e à animosidade antiamericana. Mas o que eu não esperava, confesso, era que se chegasse ao ponto de questionar abertamente a autoria dos atentados, insinuando que podem ter sido os próprios americanos a cometê-los, ou a serem coniventes com eles. O que eu não esperava é que esta questão deixasse o terreno do relativo anonimato dos blogues, de sites islâmicos e das conversas de café, para saltar para o debate público, assumindo foros de respeitabilidade. O que eu nunca pensei foi ver, por exemplo, no último Prós e Contras, pessoas com a autoridade do dr. Mário Soares fazerem-se eco dessas insinuações. Mas o erro é meu, porque a longa experiência do negacionismo e do revisionismo histórico mostra que quando um acontecimento é demasiado tenebroso para ser negado, uma forma de o minimizar, de o esvaziar do seu significado, é atribuí-lo às próprias vítimas. No mesmo debate, Pacheco Pereira qualificou justamente essa atitude de "criminalização das vítimas". Mas, mais do isso, é uma forma de absolvição dos verdadeiros criminosos. Mesmo sob a forma de dúvida, é a forma mais eficaz de des-legitimar os EUA, retirando-lhe qualquer base de sustentação e credibilidade ética e política. Pensar assim dá-nos a dimensão do ódio atávico e unilateral de uma certa opinião antiamericana que sinceramente me envergonha.
Muito já se falou e escreveu sobre as razões desse ódio. Mas sem ir às suas causas mais profundas, não deixa de ser significativo constatar o momento em que o sentimento de compaixão e solidariedade com a América atacada se transforma em acusação e condenação. Richard Perle, ex-secretário de Estado da Defesa, aponta-o com clareza: "Foi quando decidimos tomar a sério a nossa própria defesa, prescindindo da simpatia que contempla as vítimas." Acho que ele tem razão: de uma forma geral simpatiza-se com as vítimas, não com os que se defendem, essa é, aliás, a raiz das acusações a Israel, nomeadamente aquela cada vez mais banalizada de que os israelitas "imitam os seus antigos algozes". A verdade é que a América perdeu o capital de simpatia quando resolveu defender-se por si própria recusando a impotência das instituições internacionais. Em minha opinião é isto, mais do que os erros da política de Bush que estão subjacentes ao discurso incriminatório.
Isto não significa que a resposta da Administração americana aos atentados e de uma forma geral a guerra ao terror tenha sido sempre adequada e bem sucedida. A reflex&at