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04/26/07
O cavalo de Tróia

Rui Moreira

Economista, presidente da Associação Comercial do Porto

in Público, 26 de Março de 2007



Tariq Ramadan diz que o racismo estrutural na Europa é o obstáculo que impede a articulação entre o islão e o laicismo



Tariq Ramadan esteve em Portugal para participar numa conferência organizada pela Esquerda Unitária Europeia. Professor em Oxford, Ramadan é neto de Hasan al-Bana, o fundador da Irmandade Muçulmana egípcia e tem sido apontado como um dos grandes filósofos da actualidade e como o único homem capaz de evitar o tão temido "choque de civilizações". Em Lisboa, Ramadan repetiu a sua tese de que os problemas das comunidades muçulmanas não devem ser etnicisados ou islamizados porque são de natureza social e que, por isso, a Europa deve garantir-lhes igualdade de tratamento, emprego e também de habitat.

Ramadan defende que o racismo estrutural que gangrena a Europa é o único obstáculo que impede a articulação entre o islão e o laicismo e nega que haja "questões de identidade religiosa ou de identidade cultural", invocando que os extremistas são uma minoria e que o seu comportamento é uma excepção, quando comparados com os muçulmanos mainstream que não têm uma estratégia de confronto.

Ora, o cenário recentemente descrito pelo insuspeito mufti de Marselha é um pouco diferente. Para Soheib Bencheikh, a situação das comunidades islâmicas está a agravar-se e as causas são diferentes. Explicou: "Os barbudos fecharam os bairros numa visão arcaica do islão e entramos numa fase de radicalização delirante, em que estes tomaram conta do debate sobre o laicismo como um cavalo de Tróia para nos esconder esse islão político, obscurantista, que está a devastar os países árabes. Alimenta-se da crise dos jovens e por isso os locais de culto estão a abarrotar, mas eu, que sou imã, não me alegro com isso... O véu é um rumo errado para as jovens, que conduz a comportamentos inquietantes: sou favorável à lei contra os símbolos religiosos nas escolas, pois devemos evitar colocar os professores na primeira linha."



É verdade que a terapia que Ramadan propõe é mais "ao gosto" (e parece ser feita à medida) da esquerda niilista que o imagina como um apóstolo da paz e da concórdia. O filósofo que, recorde-se, considerou as reacções às caricaturas como exageradas mas justificadas, defende o direito à crítica religiosa na Europa, faria melhor se defendesse o direito à crítica no islão, o que é, obviamente, mais delicado... Foi por isso que, em resposta aos seus amigos e parentes da famosa universidade egípcia de Al-Azhar (que este ano veio a terreiro defender a excisão...), invocou que as hudud, os castigos como a lapidação e as mutilações a que pudicamente chamou de castigos corporais, davam uma imagem negativa do Islão. Deveriam pois estar sujeitos a uma moratória "nos contextos sociais e políticos actuais", mas confirmou a sua total submissão à Sharia, à sua infalibilidade e ao seu carácter definitivo, apenas sugerindo uma reforma progressiva do sistema judicial que assegure os direitos elementares, ou seja, a possibilidade de o acusado se defender. Para Ramadan, só se lapida a mulher adúltera depois do julgamento e enquanto a Europa não estiver islamizada, devem-se adiar essas sentenças... Não admira que o mufti de Marselha tenha avisado: "Conheço o homem. É um tribuno carismático que defende uma visão totalitária e integrista, e é um crime tê-lo em contacto com a juventude."

Publicado por: lpedromachado às 22:35 | link | comments | O cavalo de Tróia" target="_blank">del.icio.us
islao, sociedade, terrorismo, religiao, multiculturalismo

09/22/06
Avanços na superação do multiculturalismo

António Paim
Professor de ciência política
in Público, 18 de Setembro de 2006

Em 2006, a nova legislação britânica e francesa permitiu situar balizas, tomando como referência - explícita ou implicitamente - alguns dos valores essenciais da nossa cultura

O imperativo de superar os equívocos do multiculturalismo, no relacionamento com os muçulmanos na Europa, resulta da comprovação de que o propósito dos islamitas radicais é ressuscitar os tempos do enfrentamento militar entre o Islão e o Ocidente. O seu Calcanhar de Aquiles e a nossa vantagem flagrante advêm do fato de que os últimos séculos de convivência não podem ser ignorados. Comprovam que podemos (e devemos) coexistir pacificamente, o que não significa ignorar divergências e dificuldades.

Em fins de 2005, na colaboração habitual que mantém em jornais europeus, Francis Fukuyama advertia para a necessidade da Europa reconhecer o que então denominou de "Jihad dentro de casa". A degolação ritual do holandês Theo Van Gogh (nome fácil de guardar pela associação, ainda que indevida, ao grande pintor), ocorrida em Novembro de 2004, por muçulmano nascido e educado na Holanda, correspondeu ao primeiro grande choque com uma realidade - que muitos ainda hoje parecem não ter levado em conta, inclusive responsáveis governamentais -, embora tivesse sido antecedido pelo atentado de 11 de Março daquele ano, em Madrid. Talvez devido a questões de ordem interna, este último se não passou em brancas nuvens, também não mereceu maior atenção. Contudo, os atentados bombistas de 7 de Julho do ano seguinte, em Londres, tiveram o mérito de repor o tema em seu devido lugar. Resumindo a questão em termos apropriados, escreve Fukuyama: "países como Holanda e Grã-Bretanha precisam de inverter as políticas multiculturalistas contraproducentes, que criaram refúgio para o radicalismo, e têm de reprimir aos extremistas."

Em 2006, a nova legislação britânica e francesa permitiu situar balizas, tomando como referência - explícita ou implicitamente - alguns dos valores essenciais da nossa cultura. Assim, por exemplo, a tolerância religiosa deixa de constituir o princípio determinante naquele relacionamento. A sua admissão pressupõe a clara distinção, no que se refere aos muçulmanos, ao que seria, para nós ocidentais, a manipulação da religião com fins políticos. As próprias comunidades muçulmanas vão acabar convencendo-se que lhes incumbe tomar o partido do país que as acolheu. A rejeição e a denúncia de toda pregação radical tornar-se-ão progressivamente uma condição da própria normalidade de suas vidas. Não se pode impedir generalizações indevidas, de parte daqueles cujos familiares tenham sido vítimas de atentados terroristas.

Os recentes atentados abortados na Inglaterra, quando mais uma vez os protagonistas são de famílias de imigrantes, nascidos e educados no país, serviram para disseminar o reconhecimento da responsabilidade do multiculturalismo na criação do caldo de cultura propício a fenómenos daquela ordem. Esse reconhecimento achava-se limitado ao mundo académico, a exemplo da pesquisa coordenada pela professora Maria do Céu Pinho, da Universidade do Minho, dedicada ao tema O Islão na Europa (2006), que tive oportunidade de comentar. Agora a Ministra das Comunidades do Reino Unido, Ruth Kelly, destaca que "o consenso quase unânime sobre o multiculturalismo já ficou para trás." E encarece a necessidade de ser dado mais um passo: "deve ser questionado se este valor não tem contribuído para encorajar a separação entre comunidades" (PÚBLICO, 25/08/2006).

No novo ciclo de debates acerca do tema em causa, na Inglaterra, mais uma vez apareceu a tentativa de "salvar a face" dos candidatos a bombistas, sob a alegação de que o alinhamento britânico aos Estados Unidos, no Iraque, alimenta ressentimentos. Numa sociedade de democracia consolidada corresponde a uma tautologia referir divergências de ordem política. As pesquisas medem-nas com regularidade. Por isto mesmo, não se pode admitir o recurso a meios violentos para manifestar esse ou aquele desacordo. As regras da nossa convivência nesse plano não estão em causa. Lembro aqui a afirmativa de Nicolas Sarkozy referida em artigo anterior, segundo a qual "colocar uma bomba na Córsega ou assassinar um autarca não é um acto político mas simplesmente um crime". No caso de atentados a meios colectivos de transporte acrescentaria que se trata de um crime hediondo. Ademais, esse tipo de argumento induz comunidades muçulmanas a dispensarem-se de manifestar a sua solidariedade com as vítimas da agressão, se não quiserem identificar-se com os agressores e arcar com as inevitáveis consequências.

Publicado por: lpedromachado às 15:40 | link | comments | Avanços na superação do multiculturalismo" target="_blank">del.icio.us
politica, islao, sociedade, terrorismo, multiculturalismo

 

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