Textos integrais seleccionados, sem comentários.
Nuno Pacheco
editorial do Público, 28 de Setembro de 2006
O cancelamento oficial da ópera Idomeneo em Berlim mostra que o medo pode impor-se à razão e que a chantagem da "irritabilidade" pode ser pretexto para deixarmos de ser livres
Já lá vão sete décadas, muitas delas tumultuosas. Em 1937, o cineasta Alexander Korda sugeriu a Charlie Chaplin que fizesse um filme sobre Hitler, caricaturando-o. Chaplin não levou logo a proposta a sério, mas, quando se decidiu a fazê-lo, fê-lo com afinco. Levou dois anos. A meio das filmagens de O Grande Ditador tentaram desencorajá-lo. Em Nova Iorque, Washington e Londres um filme que pudesse irritar os nazis não era visto com bons olhos. A censura poderia amputá-lo. A distribuição poderia recusá-lo. Mas Chaplin não se intimidou. Nem os nazis precisaram do filme para se "irritarem", como tragicamente se viu. Na estreia, voltaram as ameaças: de bombas de mau cheiro nas salas, tiros aos ecrãs, desordens durante as projecções. Na América, que ainda não entrara na guerra mundial que dilacerava a Europa, o filme foi um êxito. Mas também uma dor de cabeça. O Presidente Roosevelt disse laconicamente a Chaplin (é o cineasta que o recorda, na sua volumosa autobiografia): "O seu filme está a dar-nos muitos aborrecimentos na Argentina." Mas depois veio Pearl Harbor. E ninguém mais discutiu cinema, até a própria guerra inspirar Hollywood para fazer dezenas de lucrativos filmes.
Setenta anos passados, em pleno século XXI, ainda se discute se determinada obra deve ser exibida ou amputada para não "irritar" alguém. O caso mais recente é o da Deutsche Oper de Berlim, onde a reposição de uma encenação contemporânea do Idomeneo de Mozart (estreada em 2003) foi cancelada por receio de "acções de fundo terrorista". Na encenação, o rei de Creta, revoltado "contra a ditadura dos deuses", exibe as cabeças cortadas de Posídon, Jesus, Buda e Maomé. Como isso poderia ferir a sensibilidade dos muçulmanos, deu-se o cancelamento. Porquê? Porque pairam no ar ameaças à integridade física por parte dos islamistas mais intolerantes e radicais. Ninguém se preocupou com a sensibilidade de cristãos ou budistas, pelo simples facto de, apesar de eventuais protestos, abaixo-assinados ou manifestações contra qualquer coisa que não lhes agrade, não se esperar deles agressividade semelhante. Significa que a violência compensa, que o medo pode impor-se à razão e que a chantagem da "irritabilidade" pode ser pretexto para deixarmos de ser livres. E isso é mais intolerável do que todas as eventuais provocações a credos ou crenças, porque a liberdade destes nunca foi posta em causa pela arte. Pelo contrário: é a arte, por mais discutível que seja, que tem sido condicionada, censurada e até mesmo destruída pelas mais cegas crenças e poderes.
No discurso final de O Grande Ditador, Chaplin profetizava, sob a máscara de falso Hynkel: "Saímos das trevas para a luz. Entramos num mundo novo, num mundo melhor, em que os homens dominarão a sua cupidez, o seu ódio e a sua brutalidade." A utopia desfez-se com a II Guerra: saímos para as trevas. E a elas voltaremos, se deixarmos, pelo medo, apagar a luz da liberdade.

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