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10/06/06
O Papa e o islão

Jorge Almeida Fernandes
in Público, coluna Ponto de vista, 24 de Setembro de 2006


Bento XVI faz um corte com a herança de João Paulo II, impondo uma linha de maior firmeza no diálogo com o islão. As reacções do mundo árabe não são unânimes mas continuam a ser marcadas por uma enraizada cultura de vitimização



No discurso de Ratisbona, de 12 de Setembro, Bento XVI confirmou e inovou. A parte mais articulada do texto, todo ele centrado na relação entre fé e razão, é a reafirmação da sua crítica à laicização da Europa. A referência ao islão parece secundária mas é, de facto, o "acontecimento", pois anuncia uma inflexão na política islâmica do Vaticano. A ela nos limitaremos.

Primeira nota: o Papa está a ganhar o desafio. É a própria reacção islâmica que fortalece a sua argumentação. O erro dos ulemas muçulmanos ou a incendiária campanha da Al Jazira assentam num erro de avaliação. Não estamos perante uma réplica dos cartoons dinamarqueses, insulto grosseiro a uma religião. Bento XVI interpelou intelectualmente o islão. Em lugar de uma resposta teológica ou histórica dos ulemas, houve uma explosão de violência, que alguns árabes denunciaram. "Aparecemos aos olhos do mundo como a nação de Drácula e não de Maomé, como a nação que, na era do progresso científico, nada mais sabe fazer do que inventar inimigos e pretextos para se querelar com eles", lamentou o jornal árabe Elaph, editado em Londres.

Alguns analistas falaram na inexperiência política do Papa. Perguntaram se, em ambiente de "choque de civilizações", seria o momento certo para abrir um confronto intelectual com o mundo islâmico. Outros respondem: quando será então altura de o fazer? Um jornal polaco comparou negativamente o brilho teológico de Ratzinger com a envergadura política de João Paulo II. Teria ainda sido justo e de bom senso colocar ao lado da virulenta citação do bizantino Manuel II sobre Maomé uma referência sobre a relação entre cristianismo e violência.

Esta omissão não é inocente, pois o Papa quis frisar o contraste entre uma religião aliada à razão (logos) - o cristianismo - e outra em que Deus "é absolutamente transcendente" - o islão - o que impede o exercício da razão no campo religioso. Também isto é algo redutor, pois há tradições opostas no islão, caso do sufismo.

A nova política

O desafio foi premeditado. Durante meses, Bento XVI lançou apelos aos líderes islâmicos para condenarem o terrorismo praticado em nome de Deus. Antes da conferência, fez uma homilia em que denunciou o integrismo como "patologia" da religião. Foi directo: "É importante, hoje, dizer com clareza em que Deus acreditamos e professar, com convicção, o rosto humano da religião." Uma fé radicalmente separada da razão, apoiada na interpretação literal de passagens dos textos sagrados, abre a via à tentação de impor a fé pela violência e a derivas sanguinárias.

Bento XVI mantém a linha ecuménica (entre cristãos) e de diálogo entre as religiões, mas faz aqui um corte claro com João Paulo II: o diálogo com o islão passará a ser feito sob o signo da razão e da firmeza. "Há ou não germes de violência nos textos sagrados? Há ou não, tanto no islão como nas outras confissões, instâncias críticas que permitam uma hermenêutica livre - direito de interpretação - dos textos? Há ou não autoridades religiosas capazes e livres de enunciar um direito, de denunciar os excessos, de atacar o fundamentalismo?" (Henri Tinq, Le Monde).

O endurecimento do Vaticano não se limita ao jiahdismo. O vaticanólogo americano John L. Allen Jr sublinha a "reciprocidade", a liberdade religiosa. Exemplo: a Arábia Saudita investiu milhões na construção da maior mesquita da Europa em Roma, mas não permite a abertura de uma única igreja no seu território, onde os cristãos vivem nas "catacumbas".

Acrescente-se que o que preocupa o chefe da Igreja não é apenas o que se passa fora da Europa, mas sobretudo o que se passa dentro dela: "o temor de que o excesso da razão nos países do Ocidente e a perda do sentido de Deus favoreçam (...) o desenvolvimento do islão na Europa e no Ocidente" (H. Tinq). O teórico islâmico Tariq Ramadan concorda: é uma "luta sobre a identidade religiosa da Europa". Ramadan está evidentemente do outro lado.

A "desgraça árabe"

As reacções muçulmanas foram violentas mas menos unânimes do que as televisões mostram. O Asharq Al-Awsat (Londres) lamenta: "As afirmações emanadas do Vaticano tocam profundamente os árabes e os muçulmanos, porque o Vaticano os habituou ao diálogo e apoiou-os mais de uma vez, designadamente nos confrontos com Israel e com o governo americano." A redução do islão à jihad apenas confirma e serve os interesses de Bin Laden, conclui o editorialista.

Inversamente, o Elaph denuncia os religiosos. "O que se exige ao Papa [pedido de desculpas] nunca ninguém o fez aos teólogos de Al-Zahar [universidade islâmica do Cairo]. Sua Excelência Mohammed Tantawi, que dirige esta instância suprema do islão [sunita] nunca se desculpou de nada. Manteve sempre um silêncio vergonhoso perante o terrorismo, ataca os ocidentais e os cristãos - incluindo os coptas do próprio Egipto, os cristãos do Iraque, do Sudão e de outros países árabes ou muçulmanos."
No Daily Star de Beirute, o analista Rami G. Khouri critica a insensibilidade do Papa que não percebe quão vital é hoje a religião no mundo árabe. "A religião dá identidade, um sistema de justiça, esperança e o sentido de segurança que acompanha a fé." Porquê? Substitui muitos dos atributos do Estado, "cujo papel, credibilidade e legitimidade (...) são frequentemente frágeis".

Na reacção árabe continua a ser determinante a "cultura de vitimização" denunciada pelo jornalista e historiador libanês Samir Kassir. "Incontestavelmente alimentada pela complacência ocidental face à questão da Palestina, integra outras componentes, em particular o sentimento de impotência, mas também uma certa visão policial da História. O culto da vítima defende que os árabes são o principal alvo do Ocidente" (Considerações sobre a Desgraça Árabe, Cotovia, 2006).

Kassir foi assassinado em Beirute em Junho de 2005. Dizia ainda: "(...) A rejeição da guerra das civilizações exige, do lado árabe, o abandono do arabocentrismo - ou do islamocentrismo - negativo que só concebe a história do mundo como uma ameaça permanente contra si, ameaça de resto mais "cultural" do que política e militar. Para isso é preciso também, e do mesmo passo, renunciar às justificações essencialistas, já manifestas no silêncio que rodeou o longo caso dos reféns ocidentais no Líbano, nos anos 80, ou na complacência em relação à fatwa contra Salman Rushdie, e aceitar a ideia de que os valores democráticos se tornaram património comum da humanidade." E, "para sair da desgraça, é preciso que sejam os próprios árabes a fazê-lo".

Bento XVI não se propõe reformar o islão, pede-lhe que diga o que quer ser.

Publicado por: lpedromachado às 17:34 | link | comments | O Papa e o islão" target="_blank">del.icio.us
islao, polemica discurso bento xvi

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