Textos integrais seleccionados, sem comentários.
Manuel Carvalho
editorial do jornal Público, 30 de Setembro de 2006
O PT esqueceu o seu ideário e a sua história, varreu para a memória o capital de esperança que tinha semeado nos brasileiros e sucumbiu aos vícios do poder
À superfície, o balanço da presidência de Lula da Silva parece justificar a sua reeleição à primeira volta: a economia cresceu, a estabilidade macroeconómica está garantida, o número de brasileiros a viver abaixo do limiar da pobreza extrema reduziu-se e Lula resistiu às duas doenças endémicas da política da América Latina, o despotismo e o populismo. Para os que recearam o caos com a tomada do poder de um operário metalúrgico formado na luta de classes, o desempenho de Lula e do PT só podem ser surpreendentes. Mas, para a esquerda mundial que vislumbrou nas eleições de Outubro de 2002 a abertura da primeira frente de combate ao neoliberalismo impante, o balanço é muito mais que decepcionante: é quase trágico. Os resultados da economia são um sucesso, porque Lula a interpretou seguindo a analogia do poder prescrita por Juan Péron: encarou o poder como um violino, tomou-o com a esquerda e tocou-o com a direita; depois, o que se anunciava como uma promessa de regeneração ética acabou por resultar num governo profundamente abalado pelos escândalos e pela corrupção.
O sucedido explica-se em boa parte pela influência da costela leninista do PT. O princípio segundo o qual o que era bom para o partido era bom para o Estado revelou-se de imediato. Para os seus dirigentes, o projecto de poder justificava todos os atropelos à ética e todos os atentados à transparência democrática. Com o "mensalão", com o escândalo das "sanguessugas" e, mais recentemente, com a compra de alegados documentos incriminatórios do principal opositor de Lula, o PT esqueceu o seu ideário e a sua história, varreu para a memória o capital de esperança que tinha semeado nos brasileiros, sucumbiu aos vícios do poder e apresenta-se nestas eleições com a aura de quadrilha organizada. Que tanto parece capaz de comprar consciências, como de forjar provas para se libertar de acusações, como de inventar requintados esquemas para roubar o erário público.
Os brasileiros sabem quem deveria responder por estes e muitos outros crimes contra o Estado. Sabem que Lula e os dirigentes do PT são do mesmo extracto da restante classe política brasileira. Sabem que, em vez de cumprirem as promessas de limpeza ética, se habituaram à mentira e à corrupção. Ainda assim, parecem querer dar outra vez o poder a Lula. Porque com Lula deixaram de acreditar na decência, na probidade ou na generosidade dos políticos. Um político sem palavra, carácter ou honra pessoal é uma simples consequência da lógica. Para o povo iletrado do Nordeste ou para intelectuais do Rio (como o pianista Wagner Tiso), a associação entre a política e corrupção não só é normal, como irreversível.
Lula, finalmente, parece em condições de provar a eficácia da mensagem política do populista Adhemar de Barros, que nas suas campanhas proclamava: "Roubo, mas faço." Lula, de facto fez, mas à custa da ruína moral da democracia brasileira. O país que não se vergou a Collor deixará para o futuro a lição de que se pode sobreviver no quadro democrático sob o lastro da manipulação e do roubo. O Brasil está hoje mais rico, mas, ao reeleger Lula, dá provas de que se resignou a viver em paz com um cancro moral que lhe corrói a alma colectiva.

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