Textos integrais seleccionados, sem comentários.
José Caldas
leitor do Porto do jornal Público, na secção Cartas ao Director.
30 de Setembro de 2006
A actual polémica entre o islão e o Ocidente tem, pelo menos, o mérito de colocar na ordem do dia o tema tão polémico e pantanoso da "sensibilidade" e "susceptibilidade" ofendidas. Com efeito, em tempo algum, como no presente, tanta gente se melindrou tanto por tão pouco.
Este conceito (a sensibilidade) que emerge, gradualmente, em paralelo com a ascensão do individualismo moderno, suportado pela exaltação do eu e das suas necessidades e fragilidades, é sustentado e legitimado pela influência e expansão da psicanálise, do marketing e das actuais democracias garantistas e assistencialistas, nos últimos 30/40 anos.
O problema central da "sensibilidade" é que ele se revela totalmente refractário e impermeável à discussão racional. Quando alguém se diz ofendido ou agastado é impossível confirmar ou infirmar tal posição a partir de argumentos válidos e objectivos, o que torna este conceito altamente susceptível a manipulações e abusos.
Ora a "sensibilidade" mais não é do que um mero estado de espírito que reage com indignação e melindre ao "sentir-se ofendido". Dado que este "sentir-se ofendido" pode ter causas tão diversas como pura má interpretação, má-fé, estupidez, manha, arrogância ou sobranceria, exige-se uma grande dose de prudência e bom senso ao lidar com este tipo de situações, potencialmente explosivas e torrenciais.
Parecem-me existir, pelo menos, duas situações em que o recurso ao "melindre pela sensibilidade ofendida" é, manifestamente, inaceitável.
Na primeira, essa "sensibilidade" resulta de um puro exercício de oportunismo e calculismo hipócritas e apresenta-se como um disfarce conveniente, através do qual se procura obter vantagens e benefícios particulares, explorando a compaixão, ingenuidade ou piedade alheias. Como exemplo, atente-se nas frequentes tentativas de obter compensações chorudas junto do Estado ou empresas privadas por "falhas ou erros" que resultam, as mais das vezes, da inevitável complexidade das situações ou da displicência ou negligência do utente.
Na segunda, o "melindre" assenta na intolerável presunção, individual ou colectiva, de tentar impor a terceiros agendas ou convicções particulares e, simultaneamente, exigir total imunidade ou isenção críticas da parte dos terceiros afectados. Neste caso, a dita "sensibilidade" mais não representa do que uma estratégia torpe de intimidação e ameaça à liberdade de expressão e opinião, que não pode ser tolerada.
Na raiz do problema, surge a confusão, voluntária ou distraída, entre duas situações diversas que urge distinguir: uma é o direito individual em abraçar quaisquer crenças ou convicções do agrado próprio, desde que da sua prática não resultem prejuízos a terceiros; outra é forçar esses mesmos terceiros a "respeitar ou silenciar críticas" a essas crenças ou convicções, sobretudo quando elas lhes são impostas pelo medo ou pela violência.
A clarificação destas duas posições mostra que o Ocidente está a assumir uma posição perigosamente defensiva em relação à pretensa susceptibilidade do islão, a qual resulta de uma vontade ou capricho (que não quer ser contrariado) de impor a outrem as suas convicções e não de uma qualquer situação de injustiça ou discriminação. Aliás, não há memória de um tal esforço de contenção e autocensura em relação a uma religião como aquela que, nos últimos anos, tem sido manifestada pela inteligentsia e media ocidentais em relação ao islão.
É certo que as exigências da civilidade e da boa convivência social não recomendam uma atitude sistemática de hostilidade e provocação em relação a terceiros, sobretudo por motivos fúteis e gratuitos; mas também já é tempo de o Ocidente se libertar da canga traumática do "fardo do homem branco" e dos "males do progresso" e saber fazer frente, de modo descomplexado e corajoso, ao medievalismo fanático e intolerante que, grassa já, de modo inquietante e descarado, no seu seio.

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